Base de seguidores continuará fiel a presidente, mas pequena margem de indecisos, em eleição polarizada, ainda pode fazer diferença. Donald Trump acena durante caminhada em seu campo de golfe em Turnberry, na Escócia
Henry Nicholls/Reuters
“Paguei mais impostos de renda do que Donald Trump”, dizem os adesivos que começaram a ser vendidos pela campanha democrata e refletem a indignação causada pela reportagem publicada pelo “New York Times”. O slogan ressoa nas mídias sociais como um mantra por aqueles que acreditam que, na véspera do primeiro debate presidencial e 35 dias antes das eleições, conseguirão finalmente ver o presidente nocauteado.
A minuciosa investigação produzida pelo jornal americano dá conta de que Trump não pagou imposto de renda em 11 dos 18 anos examinados pelos repórteres. Em 2016 e 2017, quando foi eleito ou já ocupava a Casa Branca, sua despesa tributária foi de apenas US$ 750 por ano. Trump declarou perdas de US$ 1,4 bilhão entre 2008 e 2009.
A análise das declarações de renda revela também que magnata fez grandes deduções: US$ 70 mil para cuidar do cabelo e honorários destinados à consultoria da filha Ivanka Trump. E ainda dívidas em empréstimos, de US$ 300 milhões, a serem debitadas nos próximos quatro anos.
A pergunta que fica é se as evidências de evasão fiscal, de conflito de interesses e de um empresário afogado em dívidas terão impacto nas urnas.
Na base fiel de seus seguidores, provavelmente não: ninguém nesse nicho se abalará com revelações que desabonem o presidente, seja como inepto homem de negócios ou por má conduta sexual. As duas acusações não impediram sua eleição.
Trump não pagou Imposto de Renda em dez dos últimos 15 anos antes de ser eleito, diz NYT
A esta altura, quando milhares de eleitores já votaram, a média de pesquisas nacionais dá vantagem de sete pontos para o democrata Joe Biden, de acordo com a plataforma Real Clear Politics.
Na mais recente sondagem realizada por ABC/Washington Post, a diferença se amplia para 10 pontos. Como explicou o pesquisador Gary Langer, embora a eleição esteja altamente polarizada, ainda há espaço para mudanças nas preferências por ambos os candidatos:
“Entre os prováveis eleitores que não apoiam Trump, 6% dizem que considerariam votar nele. Da mesma forma, 5% daqueles que atualmente não apoiam Biden poderiam mudar de ideia. Isso perfaz um total líquido de 5% dos prováveis eleitores que podem ser considerados móveis.”
Ou seja, brecha suficiente para fazer diferença em alguns campos de batalha como Carolina do Norte, Ohio, Flórida, Georgia e Wisconsin.
O presidente mal conseguiu saborear o trunfo de ter indicado, em apenas um mandato, o terceiro juiz para a Suprema Corte. Desta vez, a conservadora Amy Coney Barrett, que os republicanos esperam confirmar antes das eleições, com a clara intenção de alterar o equilíbrio ideológico do tribunal.
No fim de semana, Trump deixou no ar, já com Barrett nomeada, a possibilidade de a mais alta corte dos EUA ser a avalista final da disputa eleitoral, tal como ocorreu em 2000, a favor de George W. Bush. O presidente cogitou também a possibilidade de que sua escolha proporcione a revisão da decisão histórica de 1973 que legalizou o aborto no país.
As revelações publicadas no “Times”, contudo, evidenciaram o gosto amargo desta vitória. A Trump coube a reação esperada e já conhecida dos americanos: negar, responsabilizar terceiros e atacar a mídia.