Mudança de estrategista a 111 dias das eleições traduz desespero de Trump com a perspectiva concreta de cravar seu nome como presidente de um só mandato. Donald Trump fala durante comício em Tulsa, Oklahoma
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O destino do diretor Brad Parscale à frente da campanha para a reeleição de Donald Trump foi traçado após o fracassado comício de Tulsa, Oklahoma. O estrategista criou no presidente a expectativa de 100 mil inscritos, que lotariam o pavilhão e as suas imediações, mas só 6 mil partidários apareceram.
Desde então, a campanha de Trump, já bastante abalada pelo tripé pandemia-recessão-protestos antirracistas, embicou para baixo. E Parscale, até então considerado o seu guru político, levou a culpa pelo fiasco.
O ex-vice-presidente Joe Biden se afasta a passos largos do atual presidente na disputa eleitoral. Nesta quarta-feira, quando saíram duas pesquisas nacionais que lhe deram desvantagem de dois dígitos, Trump anunciou drasticamente, pelo Twitter, o afastamento do diretor de campanha e a sua substituição por Bill Stepien, o vice-diretor.
A sacudida na campanha, a 111 dias da eleição, traduz o desespero do presidente narcisista, sob ameaça concreta de integrar a lista dos ocupantes da Casa Branca que não renovaram o mandato. Não se muda o técnico de um time que está na liderança do campeonato.
É verdade que em 2016, Trump teve três gerentes de campanha, mas, a primeira disputa não tinha para ele o peso de um referendo. Um dia antes de rebaixar Parscale, o presidente transformou uma entrevista coletiva no emblemático Jardim das Rosas, na Casa Branca, numa espécie de comício montado exclusivamente para atacar o adversário democrata.
Pandemia nos EUA prejudica Trump nas pesquisas eleitorais
Do púlpito, desfiou o costumeiro rosário de inverdades: se Biden fosse eleito, incentivaria o contrabando ilegal de crianças estrangeiras, aboliria os departamentos de polícia e as prisões. Os prefeitos democratas permitiriam que terroristas explodissem cidades americanas.
Trump desconecta-se da realidade dos americanos, que testemunham o avanço da pandemia com um novo recorde diário de 77 mil casos e as tentativas do governo de minar a credibilidade do principal epidemiologista do país, Anthony Fauci, e do Centro de Prevenções de Doença (CDC).
A realidade das pesquisas é cruel para Trump. Mostram Biden à frente em estados que não têm uma tendência definida e competitivo até nos tradicionalmente republicanos, como Arizona, Texas e Geórgia.
Na sua ótica deturpada, o presidente externa que campanha republicana vai bem porque uma maioria silenciosa ainda não se pronunciou. Como se esta parcela dos americanos não tivesse sido devastada, em algum momento, pelos reflexos da pandemia do novo coronavírus. As ações do presidente revelam, no entanto, a consciência de que se encontra em apuros, com chances reduzidas, a cada dia, de uma reviravolta na disputa pela Casa Branca.