Tendo a diversidade como uma de suas principais bandeiras, a folia em Belo Horizonte reúne mistura de ritmos.

Marchinha, samba e axé são a cara do carnaval. Mas, tendo a diversidade como uma de suas principais bandeiras, a folia em Belo Horizonte, além desses ritmos, tem muito mais.

De bloco em bloco, é possível passear pelo carimbó do Norte do país ao forró nordestino sem sair das ruas da capital mineira. Quer ir mais longe: do rock britânico ao jazz de Nova Orleans? Também tem desfiles na cidade para te guiar por esses caminhos.

No domingo de carnaval, dia 23, o centro de BH vai ganhar cores do Pará. Desde 2014, o Bloco da Fofoca traz para a folia belo-horizontina o carimbó, ritmo do Norte que tem nas suas origens as culturas indígena, africana e portuguesa.

A cantora Ana Luísa Cosse, de 30 anos, vocalista e uma das fundadoras do bloco, conta que a ideia de trazer o gênero típico do estado do Pará veio depois de uma apresentação do Aruanda, um grupo que pesquisa folclórica, em atividade desde os anos 1960.

Engana-se quem pensa que a fofoca que dá nome ao bloco se refere à boataria. A fofoca em questão é a peça de roupa muitas vezes usada embaixo de saias rodadas nas danças folclóricas.

“Depois de uma apresentação, tinha um tanto de menina de fofoca e veio a ideia de fazer o Bloco das Fofoqueiras, da Fofoca. Mas um bloco de algo que ainda não estava sendo feito. E aí se pensou no carimbó”, diz.

No primeiro ano que bloco saiu às ruas, reuniu cerca de 30 pessoas, segundo Ana Luísa. Mas ano a ano, o aumento do público tem mostrado que a mistura entre Minas, Pará e carnaval funciona muito bem. No ano passado, o desfile reuniu entre 15 mil e 20 mil pessoas.

Segundo a vocalista, atualmente, o corpo de dança tem cerca de 200 pessoas. Uma das marcas do bloco são as saias floridas e rodadas, mas a peça não é obrigatória para girar ao som de músicas de Dona Onete, Mestre Verequete e Lia Sophia, por exemplo.

“Tem meninos que vestem saia e se divertem muito, mas tem meninas que não querem usar saia e estão ali dançando com fofoca ou do jeito que quiserem”, diz.

No estilo do jazz

Elegância marca estilo de foliões que acompanham o jazz do Magnólia — Foto: Raquel Freitas/G1
Elegância marca estilo de foliões que acompanham o jazz do Magnólia — Foto: Raquel Freitas/G1

Para sair do clima do Norte do país e desembarcar em plena folia com ares do jazz de Nova Orleans, basta ir para casa descansar e esperar o dia amanhecer. No Caiçara, na Região Noroeste de Belo Horizonte, a terça-feira gorda pode ser traduzida em “mardi gras”. Uma das ruas do bairro, a Magnólia, dá nome ao bloco que se inspira na festa norte-americana do estado da Louisiana.

“Ele começou entre 2013 e 2014, com alguns jovens moradores da Rua Magnólia. Com o pensamento de fazer uma coisa diferente, eles se reuniram. Um dos amigos trouxe a ideia de um documentário que ele estava vendo sobre o furacão Katrina, em Nova Orleans, que abordava não só a tragédia, mas também a força artística das pessoas de lá”, conta o músico e regente do bloco, Leonardo Brasilino.

Para ter jazz no carnaval, tem que levar muitos instrumentos de sopro para rua. E isso Magnólia sabe fazer! — Foto: Raquel Freitas/G1
Para ter jazz no carnaval, tem que levar muitos instrumentos de sopro para rua. E isso Magnólia sabe fazer! — Foto: Raquel Freitas/G1

No primeiro ano, cerca de 300 pessoas participaram do desfile. Com o passar dos carnavais, o bloco se tornou um dos mais tradicionais da cidade e a Rua Magnólia ficou pequena para tanta elegância dos músicos e dos foliões, que capricham nos trajes com inspiração nos anos 1920.

“De lá para cá, não só a questão estética do bloco vem se evoluindo, mas também o número pessoas que nos seguem não só no carnaval, mas também nas apresentações que a gente faz”, diz Brasilino. Em 2019, entre 30 mil e 40 mil pessoas dançaram ao som do jazz.

De acordo com o regente, o que difere o Magnólia em relação aos blocos que tocam marchinha e axé são os instrumentos de percussão. Ao lado dos sopros, nada de tamborins, agogôs e afins. Apenas uma caixa e um bumbo. “Só que não é um bumbo tradicionalíssimo de escola de samba, de banda de música brasileira. É um bumbo igual de bateria americana, só que é transportado por uma pessoa. É um bumbo específico usado lá em Nova Orleans”, explica.

Carnaval com zabumba

Pisa na Fulô traz o forró para o carnaval de BH — Foto: Raquel Freitas/G1
Pisa na Fulô traz o forró para o carnaval de BH — Foto: Raquel Freitas/G1

A terça-feira gorda é o último dia de carnaval para boa parte dos foliões e, para muita gente em Belo Horizonte, os últimos momentos da folia tem som de forró.

O Pisa na Fulô desfilou pela primeira vez em 2015 também na Região Noroeste e, no ano passado, reuniu 70 mil pessoas, entre foliões que querem aproveitar o carnaval até o último resfolego da sanfona e forrozeiros de ano inteiro.

Jhonatan Melo, um dos vocalistas do bloco, diz que a ideia de juntar o ritmo nordestino ao carnaval mineiro veio em um estudo do Di Souza – uma das figuras onipresentes do carnaval da capital mineira – em sua escola de percussão.

“Eles estavam num estudo de forró e pensaram em ocupar a [hoje chamada de] Praça Pisa na Fulô e criar um bloco”, relembra. Di Souza foi regente do bloco por três anos. Hoje a regência de zabumbas, triângulos e coquinhos ficam a cargo de Daniela Ponce, que também é responsável pela pesquisa musical.

No repertório, tem nomes e bandas consagradas do forró, como Dominguinhos, Trio Nordestino e Marinês, mas o jeito de seguir o Pisa fica por conta do folião: dançando coladinho ou pulando com a turma.

Do pop ao rock

Agora, se para você terça-feira e o Nordeste não são o limite, dá para seguir viagem até o sábado de pós-carnaval em Belo Horizonte embalado pelo “camaleão do rock”, David Bowie, no Ziriggydum Stardust.

“Rebel, Rebel é o nosso Arerê”, brinca o regente Cláudio Calixto. O bloco surgiu em 2016, depois da morte do artista britânico em janeiro daquele ano, logo antes do carnaval.

Mesmo com poucos ensaios, o Ziriggydum Stardust botou o bloco na rua com um gerador em um carinho de supermercado, partindo da porta d’A Obra, casa noturna onde David Bowie tem presença cativa nas pick-ups.

Hoje, o trio do bloco desfila no bairro Floresta, na Região Leste, e é seguido por cerca de 5 mil pessoas, muitas delas com raios pintados no rosto.

No repertório, outros nomes do rock e do pop se juntam a Bowie, como Madonna, Erasure e Cyndi Lauper. Mas a bateria do bloco, acompanhada por guitarras, baixo e bases eletrônicas, não nega as origens do carnaval, e marchinhas e axé também têm espaço no cortejo. “A gente precisa valorizar também o que nosso”, afirma Calixto.

Ziriggydum Stardust — Foto: Osvaldo Castro/Divulgação
Ziriggydum Stardust — Foto: Osvaldo Castro/Divulgação

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