Para muitas das pessoas que movimentam o rock n’ roll no estado, o lema punk ‘faça você mesmo’ é uma constante no momento. Underground do rock n’ roll baiano segue ativo, mesmo na pandemia
Arte G1
Nem Raulzito, que nasceu há 10 mil anos atrás e sabe demais de tudo que há nesse mundo, conseguiria prever a pandemia do coronavírus que tomou o planeta de assalto neste ano. Shows foram cancelados, planos foram colocados em modo de espera e as celebrações desta segunda-feira (13) pelo Dia Mundial de Rock serão em casa, via internet e televisão.
O artistas, produtores culturais e diversos personagens envolvidos no mundo underground do rock n’ roll de Salvador, entretanto, estão fazendo do limão, caipirinha (é rock, pô). Com lançamentos de músicas novas, videoclipes, apresentações online, eventos de discussão e até ações beneficentes, a turma do rock se adaptou rapidamente, buscou inspiração do velho lema punk “faça você mesmo” e segue bastante ativa.
Segundo o veterano produtor cultural Rogério Pereira Brito, mais conhecido como Bigbross, o coletivo Trinca de Selos, formado por ele, Wilson Santana (Brechó Discos) e Tony Lopes (São Rock Discos), já lançou mais de 25 discos esse ano, entre singles, EPs e álbuns. O grupo é um dos responsáveis por manter o microcosmos do rock baiano borbulhando.
“Começamos a fazer os ‘#tbts’, discos que foram lançados há 10 anos que resolvemos relançar. Logo no começo da pandemia, em abril, tivemos quatro festivais”, exemplificou Big.
Rogério Bigbross, produto cultural, diz que está trabalhando mais durante a pandemia do que antes
Arquivo pessoal
No fim de junho, o coletivo lançou o disco “COLETENA – Sessões Metálicas na Quarentena #1”, que reúne 10 bandas baianas de vários subgêneros do metal. Isso sem falar nos outros lançamentos, quase semanais, de trabalhos de artistas locais.
O já tradicional Festival Big Bands, também produzido por Bigbross, este ano foi rebatizado para “Festival Bigbands Live 2020”, com toda a programação online. O evento começou em 1º de julho e segue até 28 deste mês.
“O Big Bands não ia acontecer. Eu estava desanimado, mas fui ver o resumo da descrição do evento e estava lá: ‘mudamos sempre para ser o mesmo'”, contou Big. Era o que faltava para o evento ser posto em prática.
Vão rolar shows, bate-papos, discussões, tudo online e transmitido pelo canal Filtro de Barro, no Youtube. O público pode contribuir com a quantia que quiser, para remunerar equipe e artistas.
Bigbross conta que tem trabalhado mais na pandemia do que quando podia sair de casa.
“Nessa de ocupar a mente, acabei dizendo sim pra toda proposta que chegava”, falou.
Para Eric, o artista tem que encontrar uma forma de fazer a obra chegar ao público
Reprodução/Facebook
Um exemplo de artista que abraçou as limitações da pandemia como oportunidade é o guitarrista e bluesman soteropolitano Eric Assmar.
“Em meados de março, eu estava em Minas Gerais, com uma mini tour em três cidades. Fiz os shows, foi bem legal, e lá começaram as conversas: ‘Corona está vindo pro Brasil’. Na volta, para Salvador, estava com shows agendados de terça a sábado e foram todos cancelados”, contou Eric.
“Não houve diminuição de demanda, houve interrupção de demanda. Foi uma coisa brusca. A maneira que chegou aqui e acarretou nessa interrupção foi brusca e pegou todo mundo de surpresa”, completou.
Com isso, além de voltar a dar aulas de guitarra, ele conta que começou a mirar no mundo online.
“Março, que foi o aniversário de meu pai [Álvaro Assmar, maior bluesman da história da Bahia, que faleceu em dezembro de 2017], decidi fazer uma live no Instagram, sem muita produção, e depois meio que criei uma rotina, de caráter despojado, toda sexta, bem informal. Tenho feito também alguns shows especiais, mensais, no meu canal do Youtube”, conta.
“Esses shows são com link fechado: a pessoa adquire ingresso e recebe no email o link. Comecei pela palestra musical, em que contou a história do blues e rolou, muito legal. Em junho, fiz Dia dos Namorados, teve adesão muito boa. E agora, em 24 julho, decidi fazer o ‘Eric toca Eric’, em que toco canções de Eric Clapton, passando também por músicas da minha carreira”, conta.
Para ele, além de manter o trabalho ativo, as lives são uma forma de oferecer algo às pessoas que estão em casa.
“É uma questão até meio humanitária, oferecer algo às pessoas. Recebi um feedback ótimo das pessoas, e foi muito gratificante”, disse o músico.
“Não sei se tenho autoridade, mas se servir de conselho: é super válido se mover e compartilhar sua música para as pessoas. Tem gente que não acha, porque está saturado, todo mundo fazendo, mas se não for assim, vai ser como? Você tem que tornar sua arte viável de algum jeito”, afirmou.
André L. R. Mendes diz que o artistas tem que ‘fazer com o que puder’
Cintia M./Divulgação
Outro músico que usou as dificuldades criadas pela pandemia como combustível para produzir foi André L.R. Mendes, veterano do rock n’ roll soteropolitano e ex-integrante da banda Maria Bacana, que nos anos 90 chegou a lançar um álbum pelo selo Rockit, do guitarrista Dado Villa-lobos, da Legião Urbana.
“Para mim, o ‘faça você mesmo’, fazer com o que se pode fazer, é velho. Já faço isso há alguns anos”, falou André, que contou que estavam com disco quase pronto para lançar, quando a pandemia mudou os planos.
“Eu tava com disco pronto, gravado na WR, só faltando mixar a masterizar, e parou. Isso gerou uma frustração danada. Aí eu disse: ‘O que é que vou fazer? Ficar remoendo isso?’. Não, vou fazer um single por mês”, contou.
A primeira música, “Manda Notícias”, lança em abril, fala justamente sobre o isolamento. A canção lançada neste mês de julho também teve inspiração no pandemia: “Teu Doce” fala sobre um casal que esta vivendo um início de relacionamento na quarentena.
Para André, é função da arte, em um momento como esse, se comunicar com as pessoas. “É uma forma de dizer: estamos juntos, estamos vivendo o mesmo momento. Segura a onda daí, que eu seguro daqui”, falou o músico.
E diante das dificuldades impostas, ele reforça o lema “faça você mesmo”.
“Se você tiver um violão de duas cordas, um celular que grave e internet, você vai botar o que puder fazer. Lógico que quanto mais recurso você tiver, melhor, mas faça você mesmo. Seja atirado. Julgar todo mundo vai julgar. Pode gravar em Abbey Road ou em casa, você vai ser julgado”, afirmou.
Além das novas músicas, André também está preparando uma apresentação online na quarta-feira (15), às 19h, no Instagram.
Banda Malefactor lançou canção toda gravada em casa
Reprodução/Redes sociais
A banda Malefactor, veterana do metal, também aproveitou a pandemia para soltar uma trabalho novo, todo gravado em casa.
“Antes da pandemia, já tínhamos um home studio. Mas como vimos todo mundo nesse cativeiro de luxo, falei: Vamos aproveitar pra fazer música”, conta Vladimir Senna, vocalista do grupo, mai conhecido com Lord Vlad.
No fim de maio, a banda lançou a canção “Medusa”. “Fizemos totalmente nesse processo ‘faça você mesmo’. Gravei tudo e convidei colegas de outras bandas pra gravar solos. O próprio guitarrista do Malefecator, Danilo, fez o clipe”, contou.
Ele explica que usou a mitologia da Medusa para falar sobre as agressões que as mulheres sofrem.
“Estava tentando compor uma musica, que nem era para a Malefactor, era minha. Pensei: vou usar a coisa da mitologia, que o heavy metal sempre teve isso, mas também discutir a questão das cobranças da sociedade à mulher. A medusa é isso: proibida de ver a própria beleza no espelho”.
Para Sandra, pessoas que atuam no rock n’ roll baiano estão conseguindo se virar diante da pandemia
Reprodução/Facebook
Além dos lançamentos e lives, ações beneficentes também têm contribuído para movimentar o underground.
O próprio Festival Bigbands Live 2020, se juntou à “Campanha Unidos pela Quarentena”, que recebe doações por depósito direto, alimentos, roupas, material de higiene e limpeza e faz as doações.
Em maio deste ano, outra campanha arrecadou alimentos para músicos e outros profissionais que atuam no underground rock n’ roll de Salvador.
Um das organizadoras da ação, Sandra de Cássia, que também é responsável pelo palco do Rock, evento que reúne bandas do estilo durante o carnaval.
“A gente está atordoado. Dormiu, acordou, e estamos isolados”, falou Sandra sobre o sentimento após a chegada da pandemia.
“Quando começou a pandemia, vi que alguma coisa ia pegar. Todos nossos eventos já tinham uma ideia social, de arrecadar cesta básica, etc. Então, comecei a procurar as pessoas que pudessem agregar e encontrei o pessoal do Nefasto Motoclube, que cedeu o espaço deles, em Pituaçu. Fizemos a arrecadação em 10 de maio e conseguimos ajudar mais de 100 pessoas”, contou.
Para ela, as pessoas que atuam no rock n’ roll baiano estão conseguindo se virar diante da pandemia, mantendo os trabalhos ativos.
“O que a gente está vendo é que a galera está tirando de letra. Lançando, expondo, mostrando a cara. A gente fica feliz com isso. Vamos superar isso juntos e levar à frente o rock baiano”, falou.
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