Rastreamento por celular usado para vigiar terroristas mostra-se falho para monitorar quem teve contato com infectados de Covid-19. Um jovem judeu ultra-ortodoxo usa máscara no assentamento israelense de Beitar Illit, declarado área restrita após aumento no número de casos de coronavírus
Reuters/Ronen Zvulun
Deu errado a tentativa do governo israelense de rastrear, pelo telefone, pessoas que tiveram contato com infectados pelo novo coronavírus. Cerca de 30 mil foram obrigados a fazer quarentena após receberem uma mensagem do Shin Bet, a agência de segurança israelense, como forma de conter o novo surto da doença. Mas a maioria foi confinada por engano, conforme admitiu o diretor da agência em audiência no Parlamento.
Doze mil, dos 20 mil israelenses que recorreram da decisão, acabaram sendo liberados do isolamento forçado, explicou Nadav Argaman. Grande parte alegava que não estava perto na hora ou no local referidos na mensagem de texto pelo Shin Bet.
Polêmico e criticado por grupos de direitos à privacidade, o sistema se revelou falho para este tipo de monitoramento em massa. O próprio diretor do Shin Bet foi contrário à sua reativação, após ter sido suspenso em junho, sob o argumento de que as tecnologias tinham como alvo operações de contraterrorismo e não o rastreamento maciço de cidadãos israelenses.
A agência de segurança israelense pagou um preço alto pelo seu uso na medida em que precisou divulgar seus métodos intrusivos, avaliam as pesquisadoras Tehilla Shwartz Altshuler e Rachel Hershkowitz, do Instituto de Democracia de Israel, em artigo publicado no Brookings Institution. Até o início da pandemia de Covid-19 o programa era secreto e só foi revelado por ser implementado para rastrear a propagação do vírus.
“Seu uso para rastreamento de contato digital constitui uma violação de privacidade de proporções sem precedentes. Ele coleta informações sobre cidadãos que não são suspeitos de irregularidades, sem o consentimento deles e sem transparência. Criou um precedente perigoso para o uso de ferramentas excessivamente invasivas com outros fins que não o contraterrorismo”, atestam as pesquisadoras.
Diante do aumento da taxa de infecções — 1.300 novos casos nas últimas 24 horas — o governo tomou novas medidas drásticas, bloqueando bairros e restringindo aglomerações. Ressuscitou também, com o aval do Parlamento, o sistema de monitoramento digital, dando acesso ao Shin Bet dos telefones celulares de todos os seus cidadãos.
Após receber o aviso de que esteve em contato com alguém com Covid-19, quem não obedece à ordem da quarentena de 14 dias paga multa ou pode até ser preso pelo mesmo número de dias. O sistema falho ainda gerou outra distorção improdutiva: para burlar o confinamento, que consideravam injusto, os israelenses começaram a sair de casa sem o celular.
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