A sobrinha Letícia do Prado Silva disse que os médicos já haviam avisado que a situação do tio era irreversível. Ela atua como assistente social no hospital de Mogi das Cruzes onde Charles Aparecido Dias do Prado ficou internado; equipe também se emocionou. Paciente com Covid-19 tem alta emocionante após 80 dias de internação em Mogi
O quadro de hipertensão arterial levou o soldador Charles Aparecido Dias do Prado, de 39 anos, a buscar atendimento médico no final de abril e a descobrir uma insuficiência renal que o obrigou a ficar internado. Ainda no hospital, recebeu o diagnóstico da Covid-19, foi transferido, entubado e até mesmo desenganado pelos médicos.
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Oitenta dias depois, 60 deles lutando contra a Covid-19, a alta emocionou a equipe e também os familiares. “Eu já tinha me despedido dele. Porque os médicos diziam que era irreversível”, conta a sobrinha Letícia do Prado Silva, que atua com assistente social no hospital onde o tio estava internado.
Charles Prado ficou internado por oitenta dias, 60 dias deles lutando contra a Covid-19.
Leticia Prado/Arquivo Pessoal
Ao deixar o hospital, Charles encontrou a família e a equipe médica no corredor. Ele vai continuar o tratamento em casa. Na saída, um abraço fraterno e o agradecimento à equipe que cuidou dele, também emocionada, junto com a irmã Luciana.
“Que Deus proteja a cada um de vocês, porque foram dias muito difíceis, mas agora ele está indo embora. A gente agradece pela vida dele, por cada telefonema, cada choro, cada segundo. É muita emoção. Estou imensamente grata a vocês”, disse a irmã, Luciana Aparecida Dias do Prado.
Evolução
A primeira internação foi no dia 22 de abril no Hospital Luzia de Pinho Melo para o tratamento de insuficiência respiratória. Em 16 de maio, Charles foi levado para o Hospital Municipal de Mogi das Cruzes já entubado e com diagnóstico da Covid-19.
No dia seguinte, teve uma parada cardiorrespiratória e o quadro de saúde foi piorando. Chegou a ter o nível de saturação em 70% ainda que entubado com o máximo de oxigênio possível.
Letícia e o tio Charles antes da internação pela Covid-19.
Leticia Prado/Arquivo Pessoal
“Por eu trabalhar no hospital, eu preferi que a minha mãe e uma outra prima ficassem responsáveis por receber o boletim médico dele, eu não queria ter privilégios por trabalhar lá. Mas também conversava com a equipe médica e eles me explicavam que a situação se agravava. Eles me permitiram entrar lá algumas vezes para me despedir dele”, conta.
No dia 5 de junho, a equipe já havia conversado com a família sobre a possibilidade de fazer uma traqueostomia em Charles para melhorar a qualidade de vida dele, que estava há mais de 50 dias entubado. Nas análises para realizar o procedimento, perceberam que ele estava querendo acordar. Reagia à diminuição da sedação.
“Na segunda-feira, dia 8 de junho, ele foi extubado. Era uma emoção tão grande, porque depois de tudo o que a gente passou, tantas notícias ruins, meu tio estava voltando pra gente. Não tem outro nome que não um milagre. Ele é o nosso milagre”
Depois disso, ele ainda ficou internado até 9 de junho, para restabelecer a saúde e também vencer uma bactéria que pegou na pele e que o impossibilitava de fazer hemodiálise, porque poderia passar a doença para os outros pacientes.
Tio Charles
Na UTI do Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, onde já chegou entubado, ele ganhou o apelido de tio Charles, porque a equipe conhecia a Letícia. A enfermeira Nayara Fátima Andrade de Castro Máximo, 32 anos, atuava no setor e diz que todos os dias em que saia de lá pensava que não encontraria mais Charles ao retornar no próximo plantão.
“Eu pensava isso porque ele ficou um bom tempo fazendo a hemodiálise e a situação só piorava. Quando eu vi a saturação dele em 70% e não tinha mais como aumentar o nível do respirador, eu pensei que ele realmente tinha poucos dias”, relembra.
Nayara diz ter ficado muito surpresa ao constatar que Charles estava reagindo à retirada da sedação, porque por quase dois meses ficou em coma induzido. Ele teve um acompanhamento diário com raio-X, outros exames também e eles começaram a apontar a melhora.
“A alta dele dá muita esperança pra gente, porque querendo ou não a gente cria um vínculo e cada vitória é uma alegria para todo mundo. Eu não estava naquele momento da alta. Mas a gente vai falando que a alta está chegando e a cada dia na hora de ir embora a gente vai dando tchau, porque eu sabia que uma hora ou outra ele teria ido embora, e para casa”, conta a enfermeira.
O cuidado
Charles morava sozinho e depois da alta médica precisa de alguns cuidados. Ainda não anda, perdeu cerca de 30 quilos e a memória falha algumas vezes. Por isso não conversou com o G1.
No dia em que Charles descobriu a insuficiência renal estava com a irmã Luciana.
Leticia Prado/Arquivo Pessoal
Atualmente está na casa da única irmã, Luciana. Mais velha, com 43 anos, ela relembra que precisaram preparar a mãe, para que a qualquer momento recebesse a notícia de que o filho não havia resistido.
“Depois de tanto susto, a gente tem o maior prazer de cuidar dele. Tem uma sobrinha-neta que é fisioterapeuta e disse que ele não vai demorar para voltar a andar. Estamos fazendo a dieta direitinho e logo ele vai estar como era antes. A memória dele está voltando aos poucos”, conta.
Família chegou a receber a notícia de que ele não receberia.
Leticia Prado/Arquivo Pessoal
Três vezes por semana, Charles também passa por sessões de hemodiálise, mas fora do hospital ele tem o apoio físico da irmã, sobrinhas, mãe e os filhos Ruan Pedro e Pablo.
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