País terá fase de testes de duas vacinas do exterior, mas também desenvolve os seus próprios estudos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) contabiliza atualmente 136 candidatas a possíveis vacinas contra a Covid-19 — dez delas em fase clínica, ou seja, sendo testadas em humanos.
O Brasil, segundo país com mais mortes pela doença em números absolutos, consta da lista da OMS com dois estudos em fase pré-clínica.
Mas o país tem ainda outras pesquisas em fases preliminares em universidades e laboratórios nacionais, além de duas parcerias importantes — uma com a Universidade de Oxford e outra com o laboratório chinês Sinovac — para a fase 3 em humanos, que testarão 11 mil brasileiros.
No desenvolvimento de vacinas, existe a fase pré-clínica (com testes na placa e depois em animais) e três etapas de fase clínica (em humanos), que abrangem mais pessoas e metodologias diferentes em cada passo dado (1, 2 e 3) para encontrar as melhores formulações e periodicidades.
Instituto Butantan é a maior fábrica de vacinas da América aia
Marcos Santos/USP Imagens
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A participação brasileira conta ainda com uma médica que foi convidada pela OMS para integrar o Grupo Estratégico Internacional de Experts em Vacinas e Vacinação, um núcleo de estudos com 15 especialistas da América do Sul que avalia resultados encontrados contra a Covid-19.
Cristiane Toscano é epidemiologista, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e representa o estado na Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Ela espera que a participação nacional estimule a ciência no Brasil: “É bastante promissor termos vacinas em desenvolvimento e ensaios clínicos realizados aqui, temos também profissionais participando de diversos comitês pelo mundo. Mas poderíamos ter melhores estratégias internas de colaboração a longo prazo que estimulem filantropia e doações para financiamento de pesquisa”, destacou.
“O fortalecimento e investimento em pesquisa são marcas registradas dos países que crescem mais em PIB e produção de produtos, já que escolhem investir em educação, ciência e inovação”, completou.
Embora existam boas iniciativas neste momento, a falta de investimentos coloca o Brasil mais atrás na corrida das vacinas: “A gente tem tecnologia, pessoas e conhecimento, mas não temos dinheiro e não temos alunos, já que cortaram as bolsas. Não existe ciência sem pós-graduando. Esse desmonte deixou a ciência brasileira quebrada. Não vai ter financiamento para todos os projetos. É bem capaz que alguma ideia legal morra na praia por falta de recursos”, comentou a microbiologista Natalia Pasternak, fundadora do Instituto Questão de Ciência.
Abaixo, veja como está a participação do Brasil em cada caso:
Vacina de Oxford – Testes no Brasil (fase 3)
Uma das vacinas em estágio mais avançado no mundo é a da Universidade de Oxford, no Reino Unido, em parceria com a empresa AstraZeneca, que utiliza princípios semelhantes de estudos de vacinas contra ebola e Mers (síndrome respiratória do Oriente Médio causada por outro tipo de coronavírus).
Ao todo, 50 mil pessoas serão testadas em todo o mundo — 30 mil nos Estados Unidos e outras em países da África e Ásia. No Brasil, 2 mil voluntários entre 18 e 55 anos serão vacinados. A ideia é anunciar os resultados até setembro e, se tudo correr bem, entregar as vacinas já em outubro.
Em São Paulo, os testes em mil voluntários serão conduzidos pelo Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e contam com a viabilização financeira da Fundação Lemann em toda infraestrutura médica e equipamentos.
No Rio de Janeiro, os testes em mil voluntários serão feitos pela Rede D’Or São Luiz, com R$ 5 milhões bancados pela própria Rede, e sob coordenação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor).
São recrutadas pessoas da linha de frente do combate à Covid-19, em situação de maior exposição à contaminação. Eles precisam ser soronegativos, ou seja, que não contraíram a doença anteriormente.
A vacina utiliza uma tecnologia conhecida como vetor viral recombinante. Ela é produzida a partir de uma versão enfraquecida de um adenovírus que causa resfriado em chimpanzés — e que não causa doença em humanos. A esse imunizante foi adicionado o material genético usado na produção da proteína “spike” do Sars-Cov-2 (a que ele usa para invadir células), induzindo os anticorpos.
É considerada uma vacina moderna e “segura” por não utilizar o vírus e sim uma sequência genética.
Infectologista comenta teste de vacina no Brasil feito pela Universidade de Oxford
Butantan/Sinovac – Testes no Brasil (fase 3)
O Governo de São Paulo e o Instituto Butantan anunciaram na última semana uma parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac Biotech, que já fez testes nas fases 1 e 2 com cerca de mil pessoas — tendo criado anticorpos em 90% dos pacientes.
Pelo acordo, 9 mil voluntários brasileiros serão testados e, caso a imunização se torne segura, o país contará com doses da vacina até junho de 2021. O estudo clínico custará R$ 85 milhões.
A vacina é chamada CoronaVac e, como houve controle da pandemia na Ásia, o laboratório procurou a cooperação de países que ainda contam com muitas pessoas expostas ao vírus. Como o Brasil.
Especialistas dizem que se trata de uma “vacina à moda antiga”, com técnica conhecida desde os anos 1960, com manipulação em laboratório de células humanas infectadas com o próprio Sars-Cov-2. A vacina é produzida com fragmentos inativados do coronavírus para introdução em humanos. Com a aplicação, o sistema imunológico passa a produzir anticorpos contra o agente causador da doença.
Por trabalhar com o vírus inteiro, exige laboratórios seguros e boa logística: “É uma tecnologia que o Butantan domina. A vacina da dengue já é feita assim”, explicou Dimas Tadeu, diretor do Butantan.
O instituto é reconhecido como a maior fábrica de vacinas da América Latina. Em 2019, 60 milhões de vacinas contra a gripe foram fornecidas pelo Butantan ao governo federal.
Diretor do Butantan fala da cooperação para testar vacina chinesa contra Covid no Brasil
Iniciativas brasileiras
Incor/FMUSP – (fase pré-clínica)
O projeto nacional em estágio mais avançado é o liderado por cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e pelo Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor). A pesquisa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O grupo trabalha com plataforma de vacina baseada em partículas semelhantes ao vírus (VLP, em inglês). Os testes de três formulações de vacinas diferentes já são feitos em camundongos.
“Quando um vírus entra nosso corpo, o sistema imunológico ataca. Não queremos utilizar o vírus, queremos usar partículas semelhantes ao vírus. Fizemos isso com chikungunya, Streptococcus e agora Covid-19. Essas partículas são apenas uma base que estimula o sistema imunológico. Nele, a gente coloca alguns pedaços do coronavírus, fragmentos proteicos ou proteína inteira, dando estímulo ao sistema imunológico para produzir anticorpo”, explicou imunologista Gustavo Cabral, doutor pela USP e pós-doutor pela Universidade Oxford e pela Universidade de Berna, na Suíça.
Fiocruz Minas – (fase pré-clínica)
O INCTV (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas), que tem base técnica elaborada pelo Grupo de Imunologia de Doenças Virais da Fundação Oswaldo Cruz-MG, desenvolve neste momento outra alternativa nacional. Ele conta também com apoio do Instituto Butantan.
Os pesquisadores construíram um vírus recombinante. O vírus da influenza (da gripe comum) foi modificado dentro do laboratório para que possa transportar parte da proteína do novo coronavírus para o organismo, oferecendo proteção contra a Covid-19.
“Usamos o vírus influenza enfraquecido (atenuado) como vetor vacinal. Introduzimos um gene do coronavírus que codifica a proteína, que é o alvo da resposta imune protetora contra o coronavírus”, explica o pesquisador Ricardo Gazzinelli, líder do Grupo de Imunopatologia da Fiocruz Minas e coordenador do INCTV.
A vacina começará a ser testada em camundongos em breve. Imagina-se que ela possa chegar à fase de produção no fim de 2021, caso ela encontre eficácia e segurança em todos os testes realizados.
Vacinas não registradas na OMS
Bio-Manguinhos/Fiocruz – (fase pré-clínica)
O Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) está conduzindo um projeto de uma vacina sintética. O modelo está prestes a ser testado em animais (fase pré-clínica). A forma sintética pode ser mais rápida, mais barata e possui estabilidade para armazenagem.
Essa iniciativa, porém, não chegará ao registro antes de 2022. A vacina sintética tem como base biomoléculas ou peptídeos antigênicos de células B e T, ou seja, contém pequenas partes de proteínas do vírus Sars-CoV-2 capazes de induzir a produção de anticorpos.
As biomoléculas foram produzidas por síntese química e validadas “in vitro” (na placa). Os peptídeos foram acoplados em nanopartículas, que funcionam como uma forma de entrega para ativar o sistema imunológico. A partir de agora, serão feitas formulações vacinais com essas biomoléculas acopladas em nanopartículas para avaliação em animais.
“Temos que testar as condições nos animais e, se tudo der certo, avançamos para a fase 1 do teste clínico. Caso contrário, temos que voltar atrás um pouquinho para melhorar o desenho”, disse Sotiris Missailidis, vice-diretor de Desenvolvimento Tecnológico de Bio-Manguinhos (veja mais no vídeo).
Fiocruz começa testar vacina contra Covid-19 em animais
Instituto de Ciências Biomédicas da USP (fase conceitual)
Quatro pesquisas acontecem neste momento no ICB. Três delas são iniciativas do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas, coordenado por Luís Carlos de Souza Ferreira, diretor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. São vacinas de DNA, RNA e nanopartículas.
As duas primeiras usam uma sequência genética do vírus para inseri-lo na célula humana, produzindo cópias de proteínas do vírus Sars-Cov-2. Nestes modelos, não se usa o vírus, apenas seu material genético (DNA ou RNA), o que torna a vacina mais segura.
Como se trata de uma tecnologia nova, não há vacinas deste tipo no mercado ainda. Há iniciativas assim também nos Estados Unidos. A empresa Inovio Pharmaceuticals faz testes na fase 1 com o modelo de DNA. Já a Moderna usa o RNA e está na fase 2.
“A maior vantagem de se trabalhar com DNA e RNA é não precisar do vírus. Trabalhamos só com sequências genéticas, não precisamos cultivar o vírus, nem de laboratórios de segurança. E essas plataformas são muito versáteis. Com ela pronta, podemos facilmente trocar por sequências genéticas de outros vírus. Por exemplo, se já tivéssemos uma vacina de DNA ou RNA pronta e aprovada para Sars ou Mers, seria rápido adaptá-la para Covid19”, analisou a microbiologista Natalia Pasternak.
O modelo com nanotecnologia do ICB tem fase pré-clínica (em animais) prevista para setembro. “Temos uma plataforma de montagem das nanopartículas que se formam a partir de fragmentos do vírus. Várias vacinas usam as proteínas do vírus, por ser algo mais seguro do que usar o vírus inteiro, mas elas às vezes não induzem uma resposta tão forte no organismo. Se essas proteínas estiverem montadas em uma estrutura que se parece com o vírus – que é o caso da nanopartícula –, a gente acaba tendo uma resposta mais forte”, disse Mariana Favaro, pós-doutoranda do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do ICB, ao Jornal da USP.
A quarta iniciativa do Instituto de Ciências Biomédicas da USP também trabalha com nanopartículas e é coordenada pelo médico veterinário Marco Antônio Stephano, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Ela, porém, traz um modelo de vacina em spray nasal.
Essa iniciativa já foi usada em camundongos contra a hepatite B.
O spray é aplicado nas narinas e tem uma substância que conta com uma proteína do novo coronavírus dentro de uma nanopartícula. A ideia é que o organismo produza o anticorpo IgA Secretoram. Serão necessárias quatro doses de aplicação — duas em cada narina, com intervalo de 15 dias. Os protótipos devem ficar prontos em setembro, quando testes em animais serão iniciados.
Instituto Butantan (fase conceitual)
Embora aposte no desenvolvimento da vacina chinesa da Sinovac, o Instituto Butantan também realiza uma pesquisa própria que é vista como um “plano B” para o caso de as vacinas que estão em estágio mais avançado não se mostrarem seguras e/ou eficazes. O estudo também tem o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)
Segundo Luciana Cezar Cerqueira Leite, pesquisadora do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas, um trabalho que vinha sendo desenvolvido para esquistossomose pode ser adaptado. “Tivemos resultados muito bons, então redirecionei o projeto para usar a mesma plataforma, mas com as proteínas do coronavírus. Existem no mundo hoje pesquisas de vacinas mais adiantadas usando RNA, vírus inativado e adenovírus. Esperamos que algumas delas funcionem e resolva o problema. Quando estiverem saindo o resultado delas, esperamos finalizar a fase pré-clínica da nossa, para decidir se seguimos ou não com esse plano B”.
Neste modelo, utiliza-se OMVs (vesículas de membrana externa, na tradução) como matriz suporte dos antígenos, para que a partícula mimetize (imite) o vírus. A ideia é que partículas sejam liberadas por bactérias para distrair o sistema imune, provocando uma resposta favorável contra o vírus.
“A bactéria solta pedaços de sua membrana para desviar a atenção do sistema imunológico, que fica tentando matar essas vesículas. É um mecanismo de escape da bactéria. Elas ativam muito o sistema imunológico. Já vinham misturando essas vesículas com proteínas. Agora a estratégia é grudar as proteínas do vírus em sua superfície, fazendo uma coisa que parece uma partícula viral. Contra a esquistossomose, essa indução produziu 100 vezes mais anticorpos do que a proteína sozinha. E ela ainda ativa células que vão atacar o vírus. Pode ser interessante”, explicou a pesquisadora.
Farmacore (fase conceitual)
Uma empresa de biotecnologia de Ribeirão Preto (SP) estuda a produção de uma vacina que utiliza proteínas do próprio Sars-Cov-2. Trata-se da Farmacore, que trabalha em fase exploratória (pesquisa de antígenos) e prevê iniciar a fase pré-clínica com camundongos a partir de julho.
A ideia é usar pedaços da proteína Spike (S), responsável pela entrada do coronavírus na célula quando se liga a um receptor em organismos humanos, e também outras proteínas e membranas. O objetivo é induzir anticorpos neutralizantes que impeçam a entrada do vírus. O sistema carregador, composto por micropartículas, foi elaborado pela empresa americana PDS Biotechnology, parceira nesta empreitada.
O próximo passo é submeter a ideia a testes em camundongos, na fase pré-clínica.
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