Muitas pessoas com sintomas da Covid-19 preferem não fazer exames e se cuidar em casa, por medo do tratamento dado aos diagnosticados com a doença. O presidente Nicolás Maduro participa do desfile do Dia da Independência em Caracas, na Venezuela, em 5 de julho
Palácio de Miraflores/Divulgação via Reuters
Os casos do novo coronavírus não parem de subir na Venezuela: nos últimos dias, mais de uma centena de militares venezuelanos testaram positivo para a Covid-19. Posicionados em hospitais, nas fronteiras com o Brasil ou Colômbia e em postos de gasolina, eles são os que mais circulam pelo país durante a quarentena.
Seja com o uniforme verde-oliva ou com o bege, usado pelos milicianos, em diversos lugares da Venezuela é possível observar integrantes das Forças Armadas Nacionais Bolivianas posicionados. São eles que fazem o controle das imediações de hospitais públicos ou dos 46 hospitais sentinelas habilitados pelo governo bolivariano para atender pacientes do novo coronavírus. O mesmo acontece em postos de gasolina que vendem o combustível importado do Irã e subsidiado pelo governo, e nas vias legais das fronteiras com o Brasil e a Colômbia, por onde diariamente passam milhares de pessoas.
Apesar de usarem máscara, tanta exposição durante o “estado de emergência” imposto pelo presidente Nicolás Maduro para conter o avanço do vírus, fez com que mais de 160 militares testassem positivo para a Covid-19 até o momento. Eles ocupam ainda cargos ministeriais – cerca de dez ministérios estão nas mãos deles –, políticos ou resguardando o alto escalão do chavismo.
Contágios no alto escalão e privilégios
Este estreito contato dos militares com altos funcionários propiciou a contaminação de pelo menos onze autoridades bolivarianas, entre elas Diosdado Cabello, militar da reserva e segundo homem forte do chavismo, e o ministro de Petróleo, Tareck El Aissami.
Não há informações concretas por parte do governo quanto ao tratamento dado aos militares infectados. No entanto pelas redes sociais há denúncias de que pelo menos um hospital, localizado na capital venezuelana, foi destinado aos funcionários castrenses ligados ao governo.
Os militares, sobretudo os de alta patente, que dá suporte ao governo de Nicolás Maduro, recebem atenções que não são dispensadas a outros funcionários estatais. O chavismo conta com milhares de milicianos da FANB para o “Plano Nacional de Biosegurança”, estratégia que apoiará o combate à pandemia e, sobretudo, a realização das eleições parlamentares, previstas para 6 de dezembro deste ano.
Um funcionário municipal com um traje de proteção pulveriza desinfetante nas mãos de um cliente em um mercado no bairro de Petare em Caracas, na Venezuela
Federico Parra/AFP
Declarações polêmicas
Há poucos dias, aconteceu a formatura de 1.083 oficiais que passaram por escolas de diversas formações militares da FANB. O presidente Nicolás Maduro também fez discretas mudanças na ala militar, mas Vladimir Padrino López foi ratificado ministro da Defesa, cargo que ocupa há quase seis anos. Poucos militares ficaram tanto tempo nesta posição, considerada o alicerce do madurismo.
Após ser ratificado, Padrino fez declarações sobre o futuro processo eleitoral. “Nós temos as armas para a pátria. Para chegar ao poder político, é preciso participar de processos democráticos como as eleições. Essa facção não poderá chegar ao poder político pela via da violência. Eles não têm as armas. Nós temos.”
Padrino se referia aos partidos opositores que foram deslegitimados pelos Tribunal Supremo de Justiça, poder tido como aliado do chavismo. A fala do militar motivou um comunicado no qual 24 ex-presidentes, entre eles o argentino Mauricio Macri, expressaram preocupação.    
Um homem usando uma máscara facial passa por um grafite com a mensagem ‘glória ao povo corajoso’ no centro de Caracas, na Venezuela, depois que o governo impôs um bloqueio nacional como medida preventiva contra conter a Covid-19
Federico Parra/AFP
Quarentena radical
Em todo o país, nas últimas 24 horas, 303 pessoas testaram positivo para o vírus, para um total de 1.010 desde o registro do primeiro caso da doença, em março.
Pelo menos em Caracas e no estado Miranda, que compreende algumas regiões da Grande Caracas, começou a vigorar nesta quarta-feira (15) uma quarentena rígida para conter a propagação do coronavírus. Caracas e Miranda formam juntas a terceira região do país com mais casos da Covid-19. Apenas negócios destinados à saúde ou alimentos poderão abrir, até segunda ordem. Outras regiões da Venezuela estão em flexibilização da quarentena.
Medo de fazer exame
Muitas pessoas com sintomas da Covid-19 preferem não fazer exames e se cuidar em casa, por medo do tratamento dado aos diagnosticados com a doença. Em Caracas, após um homem ser detectado com o coronavírus, os vizinhos do prédio onde ele mora foram levados por integrantes das Forças de Ações Especiais (FAES) para fazer exames e o prédio foi provisoriamente interditado.
“Todo mundo chorando, todos em estado de tensão e cada um [que fazia o exame] saía positivo. Eu queria ir embora”, conta uma moradora, que preferiu não se identificar, sobre a angústia que viveu enquanto esperava o resultado do teste.
“Só de pensar que poderia dar positivo, eu sabia que não voltaria para a minha casa e ver meus filhos. As pessoas que tiveram que ficar lá choravam, esperneavam. Horrível!”
Uma mulher é vista utilizando uma máscara facial enquanto caminha pelo bairro de Petare em Caracas, na Venezuela, na segunda-feira (13)
Federico Parra/AFP
Alguns venezuelanos que aguardam o resultado do teste são levados a abrigos. Em Caracas, hotel Pestana, que já foi considerado cinco estrelas, foi transformado em centro de observação. Na calçada do lugar, familiares denunciam que as condições no local não são adequadas e a comida oferecida é apenas sopa e arepa (um pãozinho feito de farinha de milho).
Em alguns centros de saúde, os profissionais se recusam a atender novos pacientes por causa da saturação. Eles também reclamam que não recebem equipamentos de proteção individual (EPI) e precisam usar a mesma máscara por até uma semana, ou pagar do próprio bolso por uma nova. Muitos médicos e enfermeiros já se contaminaram.
O presidente Maduro se refere ao novo coronavírus como o “vírus colombiano”, ao afirmar que a doença se espalhou por causa de casos “importados” por venezuelanos que retornaram do país vizinho. Por conta do temor do resultado do exame e por haver oferta suficiente de testes, estima-se que o número de contaminados na Venezuela seja bastante superior ao informado pelo governo.