No século 18, o almirante Byron, um explorador britânico, chegou a Napuka e Tepoto e, como não pôde desembarcar, chamou-as de Ilhas da Decepção. Atualmente pertencem à Polinésia Francesa e são um dos lugares menos visitados do mundo. Tepoto é um dos lugares menos visitados do mundo
Andrew Evans/BBC
O avô de Lord Byron estava tendo um dia ruim.
O escorbuto (doença causada pela deficiência de vitamina C) derrubou sua tripulação no HMS Dolphin, forçando-os a se acomodar nas redes, onde balançaram no calor pegajoso dos trópicos enquanto o navio avançava lentamente pelo Pacífico.
Ansiosa por controlar o Atlântico Sul, a Marinha britânica incumbiu o almirante Byron de colonizar uma ilha na costa da América do Sul onde os navios poderiam reabastecer e, em seguida, encontrar uma rota alternativa para as Índias Orientais.
Quando finalmente voltou para a Inglaterra, ele havia estabelecido um recorde de circunavegação do globo em menos de dois anos; reivindicou as Ilhas Malvinas (Falkland Islands) ocidentais para a Coroa; e quase iniciou uma guerra entre a Grã-Bretanha e a Espanha no processo.
Mas depois de contornar a ponta da América do Sul, o explorador enfrentou a maior massa de água do mundo: o infinito Oceano Pacífico.
Após um mês de horizonte azul vazio, uma pequena ilha apareceu. Byron anotou a data (sexta-feira, 7 de junho de 1765) e descreveu com alegria a “bela aparência da ilha, cercada por uma praia da mais fina areia branca, e coberta por árvores altas, que formavam os mais belos bosques”.
As Ilhas da Decepção fazem parte do Arquipélago de Tuamotu, o maior grupo de atóis de coral do planeta
Andrew Evans/BBC
O oficial da Marinha observou sua tripulação chegar com dificuldade até o convés, “olhando para este pequeno paraíso” que era verde com abundantes cocos, cuja polpa e água ricos em vitaminas poderiam curar o sangramento de suas gengivas.
Infelizmente, Byron concluiu rapidamente que era impossível parar lá. “Não pude chegar perto da ilha com o navio”, escreveu ele em seu diário. Com as ondas altas e uma costa de coral rasa que descia totalmente para o azul sem fundo, não havia ancoradouro seguro.
Além disso, havia os nativos, observou Byron, que apareceram na praia brandindo lanças de 5 m de comprimento. Eles fizeram grandes fogueiras de sinalização para alertar uma ilha vizinha sobre os invasores. “Os nativos correram ao longo da costa lado a lado, na direção do navio, gritando e dançando”, lembrou Byron, acenando com suas longas lanças como um aviso.
“Eles teriam nos matado se tivéssemos nos aventurado a ir para a costa”, escreveu Byron, que fez mais uma tentativa antes de desistir. “[Eles] soltaram um dos gritos mais horríveis que eu já ouvi, apontando ao mesmo tempo para suas lanças e carregando grandes pedras que pegaram na praia.”
Os britânicos fizeram uma tentativa desvairada de diplomacia jogando pão velho nos ilhéus, que se recusaram a tocar na comida estragada, mas entraram na água e tentaram afundar o barco.
Byron recuou e partiu em direção à ilha vizinha, mas não conseguiu ancorar ao longo do atol de coral. Enquanto isso, nativos armados com lanças e porretes seguiam o barco na arrebentação, usando “gestos ameaçadores para impedir sua chegada”.
Byron só convenceu os ilhéus a recuar quando disparou uma bala de canhão de 9 libras. Menos de 20 horas depois de chegar, Byron partiu, marcando sua frustração em um novo mapa do mundo ao nomear esses atóis de Ilhas da Decepção. O mapa foi publicado após sua jornada ao redor do mundo, e o apelido permaneceu desde então.
Redescoberta
Eu ri alto quando vi o nome no diário de bordo de Byron durante um surto de insônia, e fui instantaneamente fisgado, lendo linha por linha durante a noite até o amanhecer.
O nome, agora comumente listado como Ilhas da Decepção, soava mais como o título de algum quadrinho antigo de Tintim do que um lugar real na Terra.
Mas o nome foi verificado online, apontando para Napuka e Tepoto, um par de pontos distantes no Pacífico Sul, gravados na superfície azul do arquipélago de Tuamotu, o maior grupo de atóis de coral do planeta.
Olhando no Google Earth, a menor das duas Ilhas da Decepção parecia um organismo unicelular flutuando sozinho no oceano. Medindo apenas 4km2, Tepoto é uma das menores das 118 ilhas e atóis que compõem a Polinésia Francesa. É também a pequena ilha onde Byron não conseguiu chegar. Eu poderia chegar lá e ficaria desapontado também?
E, no entanto, 254 anos após a tentativa de Byron, as Ilhas da Decepção ainda são de difícil acesso. Os voos para o atol maior de Napuka nem mesmo estão listados no site internacional da Air Tahiti.
Localizada a quase 1.000 km da capital do Taiti, Papeete, Napuka é uma das ilhas mais isoladas da Polinésia Francesa e uma parada rápida em uma rota aérea circular maior.
“Você deve arranjar um lugar para ficar com antecedência,” minha amiga Celeste Brash recomendou. Ela nunca tinha estado em Napuka, mas como autora do guia do Lonely Planet do Taiti e da Polinésia Francesa, ela falou por experiência própria: “Aqueles atóis realmente remotos em Tuamotus não sabem realmente o que fazer quando os visitantes aparecem.”
Sem hotéis, sem restaurantes, sem indústria turística: parecia o paraíso para mim. Este era o meu maior desejo como viajante: aparecer sem avisar como aqueles marinheiros britânicos enfermos, abertos ao destino da verdadeira exploração.
Optei por evitar o escorbuto e os longos meses no mar em favor do voo de 18 horas de Washington DC para o Taiti. Depois de uma noite em Papeete, embarquei em um avião a hélice para a viagem de duas horas até Napuka.
Viagem
Durante a primeira hora, observei o oceano vazio muito abaixo de mim. A intensidade do azul me surpreendeu tanto quanto a imensidão da água.
Acredita-se que a Polinésia seja uma das últimas áreas da Terra colonizadas. Apoiando minha testa contra a janela, estudei a superfície do Pacífico no meio da manhã, aquecendo-me naquele raro momento em que verdades geográficas rígidas nos confrontam: a Polinésia é mais oceano do que qualquer outra coisa.
Tênues anéis brancos de atóis de coral apareceram – as”ilhas baixas” de Tuamotus. Então pousamos no atol de Fakarava, de onde desceram pelo menos metade dos 20 passageiros. Dez minutos depois, estávamos de volta ao ar, pairando sobre um trecho ainda maior de azul.
Outra hora se passou antes que eu reconhecesse o minúsculo Tepoto: sozinho no oceano e minúsculo, exatamente como na tela do meu computador em casa.
O avião virou para a direita e o atol maior de Napuka preencheu minha janela, como um bumerangue turquesa circundando um longo colar de ilhotas de coral branco. Pouco antes de pousarmos, vi um flash de telhados de metal e palmeiras verdes, algumas estradas de terra e uma torre de igreja pontiaguda.
Quando as portas se abriram, o ar quente e espesso saturou o avião e eu corri pela pista para a sombra do Aeroporto Napuka. Parecia que toda a ilha tinha vindo ao encontro do avião, o primeiro voo a pousar em semanas.
Famílias correram em nossa direção e jogaram colares de flores perfumadas em volta do pescoço de seus entes queridos. Como o estrangeiro solitário, fiquei distante, observando desajeitadamente o ritual de boas-vindas, já me sentindo invasivo e desconfortável. Embora eu tivesse viajado 12.000 km, uma grande divisão permaneceu. Eu não pertencia a esta cena, e todos sabiam disso.
“Você está aqui de férias?”, um jovem me perguntou em francês.
Eu sorri e encolhi os ombros. “Oui.” Era mais fácil do que explicar como pesquisar no Google e ler o diário de um capitão do mar do século 18 me levaram a embarcar nessa busca.
‘Vamos descobrir algo’
O nome dele era Jack, e ele e seu colega Evarii eram técnicos eletrônicos do Taiti, atendendo a todas as sirenes de alerta de tsunami na Polinésia Francesa.
Vieram consertar a sirene de Tepoto, que só é acessível por barco de Napuka, e como eu, teriam de ficar oito dias antes do próximo voo de volta. Mas por que eu vim? Jack me perguntou. Onde eu ficaria? Eu entendia que não havia “serviços” em Napuka?
Evarii parecia incomodado com minha presença.
“Você faz isso com frequência?”, ele perguntou. “Aparecer em um lugar sem planos?” Antes que eu pudesse dizer a ele que sim (na verdade, essa era minha maneira favorita de viajar), Jack interveio.
“Eu vou falar com a prefeita. Vamos descobrir algo.”
Como se estivesse saindo de uma pintura de Gauguin, uma mulher logo se aproximou de mim com uma saia brilhante e esvoaçante e um largo chapéu de palha com alfinetes de flores.
Seu nome era Marina e como tavana (“prefeita”, em taitiano) do atol de 300 pessoas, ela supervisiona tudo o que acontece em Napuka, incluindo todos os voos que pousam no aeroporto.
“Por que você não nos contatou para nos avisar que estava vindo?”, me perguntou. Eu me atrapalhei com uma resposta pouco convincente, dizendo que não queria ser um fardo.
“Você quer visitar Tepoto?” perguntou, porque já havia um barco organizado para os técnicos. Sim, queria visitar Tepoto. Aquela foi a primeira ilha de Byron e, além do barco de abastecimento que ia uma vez por mês, não havia como alcançá-la. Eu agarrei a chance.
“Venha conosco”, disse Jack, sorrindo. Evarii bufou.
“Você sabe que não tem água lá”, Evarii mencionou enquanto olhava minha bagagem escassa.
Eu sabia. Tinha praticamente memorizado o verbete da Wikipedia: “Estas ilhas são áridas e não são especialmente favoráveis ​​à habitação humana”. Eu tinha alguns litros de água na bolsa, mas mal dava para um dia, quanto mais uma semana.
“Podemos compartilhar”, disse Jack. Dirigimos na traseira da caminhonete de Marina até o pequeno cais de cimento, onde um pequeno esquife de metal estava pendurado por cabos de aço de um trator de carregamento frontal.
Ajudei a carregar o pequeno barco com suprimentos, incluindo um enorme refrigerador de água potável que os técnicos verificaram como carga do Taiti. Em um piscar de olhos, o carregador frontal jogou o esquife na água e dois motoristas deram vida aos motores de popa.
Chegada
Além do vento, o único som era o zumbido dos motores de popa gêmeos que carregaram nosso pequeno grupo para o coração do oceano.
Em todas as minhas viagens e travessias do oceano, nunca me senti tão vulnerável na água. Eu estava sentado em um barco do tamanho de uma mesa de cozinha, flutuando sobre a parte mais azul e vazia do globo, sem uma partícula de terra à vista. A orla de palmeiras em Napuka tinha desaparecido atrás de nós, e por 10 minutos, o horizonte vazio encontrou meu olhar em todas as direções.
E ainda assim eu sentia uma confiança inerente em meus companheiros de tripulação polinésios. Eu deixei minha vida em suas mãos e observei enquanto eles liam as mudanças nas correntes como sinais de trânsito.
Seus olhos voltaram-se para o horizonte e seus dedos torceram o ângulo do motor em meia polegada, para um lado e para outro, nos direcionando para o alvo invisível de uma ilha tão pequena que você poderia perdê-la e nem mesmo saber.
“Sem GPS”, disse Evarii. “Eles simplesmente sabem para onde ir.”
Vinte minutos e 10 km depois, uma fina faixa verde de terra ergueu-se da água, seguida pela praia de coral branco contra as ondas azul-esverdeadas. Depois de mais 20 minutos, a ilha ficou totalmente visível: coqueiros balançando, exatamente como Byron tinha visto há muito tempo.
Ao contrário do almirante, desembarquei com sucesso em Tepoto. Em sincronia com o aumento e a queda das ondas, pulei no pequeno cais e observei outro carregador frontal arrancar o barco do mar.
Fazia todo o sentido que um veleiro britânico do século 18 não conseguisse encontrar um porto aqui. A ilha não era nada mais do que um recife pontiagudo e raso que descia totalmente para as profundezas azul-escuras, assim como Byron havia descrito.
Esta é a única rua em Tepoto e está pavimentada com pedra de coral triturada
Andrew Evans/BBC
“Bem-vindo a Tepoto”, disse um homem de quase 30 anos enquanto apertava minha mão salgada e se apresentava como Severo, o único policial da ilha e filho da tavana Marina.
Ela ligou para dizer a ele que eu estava chegando, e agora um grupo de ilhéus estava vindo para nos cumprimentar. No leme, estava uma mulher envolta em um muumuu roxo que deixou cair um cordão de gardênias brancas do Taiti em volta do meu pescoço.
“Bienvenue”, disse ela, beijando-me nas duas bochechas e se apresentando como Louana.
“Maururu”, respondi em taitiano. Obrigado.
Louana era a tavana de Tepoto, e ela nos conduziu da praia, passando pelas palmeiras inclinadas até a única fileira de bangalôs em tons pastéis que se alinhavam na única rua da ilha, pavimentada com pedra de coral esmagada.
“Você já viu um coqueiro de quatro cabeças?” um menino me perguntou em francês, correndo ao meu lado.
“Não, não vi”, respondi.
“Nós temos um”, um menino mais velho interrompeu.
Lutei para seguir a excitação de vozes que vieram até mim, cada uma delas um estranho quebra-cabeça de informações sobre este notável coqueiro de quatro cabeças e como originalmente o tronco foi dividido em sete cabeças, mas esses três extras explodiram em um tufão há muito tempo. Vários ilhéus se ofereceram para me mostrar a maravilha arbórea.
Duas horas depois de chegar às Ilhas da Decepção sem água ou planos, eu tinha um lugar para ficar com os técnicos visitantes em um barraco rosa descascado com paredes de compensado e quadrados recortados para as janelas.
Cortinas estampadas com flores de hibisco branco balançavam com a brisa enquanto eu me sentava suando na cama, me ajustando ao calor de 38ºC. Não só eu tinha pousado em Tepoto, mas fui bem recebido.
Tepoto
Minutos depois, Severo passou zunindo em sua scooter com o almoço feito por sua esposa Tutapu: pargo frito com arroz, ervilhas e pão de coco. O peixe tinha sido pescado naquela manhã e estava mais delicioso do que qualquer um que eu já tivesse comido em um restaurante.
Como policial da ilha, a função de Severo era manter a paz e cuidar do bem-estar das poucas dezenas de habitantes, explicou.
“É muito tranquilo aqui”, disse ele. “Sem problemas reais.” Mas agora eu havia aparecido e ele continuava olhando nos meus olhos, como se tentasse ler minhas intenções. “Não me lembro da última vez que recebemos uma visita. Não houve desde que cheguei aqui, mais de 20 anos.”
Na verdade, Severo disse que ninguém conseguia se lembrar da última vez que um não polinésio tinha ido a Tepoto. Então, disse que o que eu havia lido na Wikipedia estava errado: não havia 62 residentes na ilha, mas perto dos 40 agora, 13 dos quais eram crianças com menos de 12 anos.
“Os jovens vão embora”, explicou ele. Assim que completam 12 anos, o governo francês os envia para um internato em Hao, outro atol no arquipélago de Tuamotu, a 390 km de distância.
No ensino médio, os adolescentes vão para a ilha principal do Taiti. Severo cresceu em Napuka e voltou para lá depois do colégio, então se casou com uma garota de Tepoto e se mudou para cá.
“O que você vai fazer enquanto estiver aqui?”, Severo perguntou.
“Explorar”, respondi, embora não tivesse feito planos reais. Eu realmente não havia pensado além da possibilidade de chegar aqui. Agora que eu realmente consegui, os próximos dias me confrontaram. “Espere até ficar mais fresco”, aconselhou.
Cochilei durante a tarde quente e úmida e não ouvi nenhum outro som, exceto minha própria respiração lenta. Às 16h, segui o som de um sino tilintando do outro lado da estrada, onde a maioria dos ilhéus se sentou em bancos externos de frente para um santuário coberto de guirlandas de flores e correntes de conchas.
Um músico tocava violão em um canto enquanto a enfermeira da ilha se levantava e liderava a congregação em um hino forte e harmonioso.
Ainda cantando, uma mulher se moveu para o lado, oferecendo-se para compartilhar seu banco comigo. A missa católica durou uma hora inteira, girando entre cânticos, leituras e hinos, tudo em taitiano.
Posteriormente, a senhora explicou que esta era a semana sagrada da peregrinação, quando os ilhéus se reuniam duas vezes por dia ante Virgem Maria, a estatueta angelical no centro da elaborada decoração floral.
“Temos sorte aqui em Tepoto”, disse ela. “Não há guerra. Sem crime.”
Ela também me disse que não havia água encanada ou internet, e a eletricidade era muito limitada. Tepoto recebeu seus primeiros painéis solares e energia elétrica em 1995, e uma torre de telefonia móvel nos últimos cinco anos.
“Você já viu um coqueiro de quatro cabeças?”, ela me perguntou.
“Não.”
“Temos um aqui, talvez o único no mundo”, disse ela com ar misterioso antes de se despedir e voltar ao bangalô para desembaraçar um porco peludo amarrado por uma perna a uma palmeira.
O sino me acordou antes do amanhecer, chamando os fiéis para outra missa. Desta vez, optei por sair e caminhei até o final da estrada, passando pelas palmeiras em leque e saindo para a costa de coral.
O sol nasceu atrás de mim e iluminou o mar como prata. Continuei em direção ao sul, caminhando ao longo da ilha de 2,6 km e admirando as piscinas naturais que abrigavam minúsculos mundos de caranguejos pintados de marrom e peixes verdes.
Moluscos de olhos azuis estavam cimentados no coral cor de ferrugem e aves marinhas voavam lá em cima.
Enormes cruzes de pedra branca marcavam os pontos cardeais da ilha.
Em três décadas de viagem, nunca havia encontrado um lugar tão bruto e solitário. As praias vazias e os silenciosos palmeirais pareciam atemporais, como se uma miragem do navio de Byron ainda pairasse em algum lugar na brisa quente e salgada.
Eu tinha visto esta ilha retratada em atlas antigos e no globo do meu avô e, de alguma forma, me transportei para cá.
Em poucos dias, entrei na forçada simplicidade da ilha: dormir sob um único lençol de algodão; tomar café instantâneo feito com água da chuva drenada do telhado; comer amêijoas cruas; e depois explorar cada trilha curta na ilha.
Tomei banho com uma concha de água do barril de chuva. À sombra das árvores e dos telhados das varandas, conversei com os ilhéus e ouvi suas histórias.
Às vezes, sentia uma sede dolorosa, mas ficava em silêncio, nunca pedindo uma bebida. No entanto, de alguma forma, os ilhéus sempre souberam, enviando seus filhos para colher cocos frescos e depois abrindo-os e pedindo-me para me hidratar.
Eu me ofereci para pagar e sempre recusaram. Na verdade, eu só usei dinheiro uma vez, para pagar Severo pelo meu quarto e comida.
A notícia de que um estrangeiro havia pousado e estava hospedado no bangalô rosa perto do cais espalhou-se pela pequena ilha. Ocasionalmente, algumas pessoas paravam à noite para dizer olá, oferecer-me um passeio pela ilha ou fazer-me perguntas sérias. “Quantas casas você tem na sua cidade?”. “Você é cristão?”.
Às vezes, quando saía para explorar, vislumbrava olhos vigilantes, me espiando por entre as folhas das palmeiras. Eles sabiam que eu estava sob os cuidados do policial, mas permaneceram em alerta. Reagi vivendo com total transparência, até minha cueca secando no varal.
Quando ficou muito quente, nadei no oceano, os ilhéus olhando da costa. Montes de coral pontiagudo brilhavam como néon, saudáveis ​​e intactos, poupados da destruição descuidada dos homens.
Talvez a decepção de Byron tenha protegido este lugar do resto do mundo, preservando-o até hoje. Eu tinha visto os recifes de coral branqueados e quebrados de Bora Bora e Taiti, onde amor demais arruinou o paraíso natural que primeiro colocou a Polinésia no mapa turístico.
Mas aqui, a meio caminho entre as Marquesas e os principais grupos de ilhas de Tuamotu, Tepoto permaneceu relativamente imaculada. Tive a sorte de vislumbrar a vida subaquática vibrante e abundante, sabendo que milhões de turistas visitariam o resto da Polinésia e nunca veriam esse tipo de recife virgem.
Nem veriam o coqueiro de quatro cabeças. Após dias de expectativa, recebi um convite pessoal de três estudantes (Tuata, Tearoha e Sylvain) que me acompanharam até a prefeitura, onde os técnicos estavam terminando seu trabalho no sinal de alerta de tsunami.
O coqueiro de quatro cabeças
Um trator atarracado com uma pá larga (o único veículo da ilha) foi despachado para nossa aventura. O pai de Sylvain, André, dirigia, enquanto eu ia dentro da pá com os técnicos. Ao todo, éramos oito agarrados ao trator enquanto manobrávamos e abríamos caminho até o denso coqueiral no centro da ilha.
Os cocos são a única cultura comercial em Tepoto e, à medida que avançávamos pela floresta, percebi pequenas pilhas de cocos cortados pela metade, grossos com cascas peludas, secando ao sol.
A polpa branca e oleosa, chamada copra, ganha uma taxa fixa de 140 francos locais (cerca de R$ 7) por quilo e é transportada uma vez por mês a bordo de um navio de abastecimento.
Todo ilhéu tem o direito de recolher e vender a copra em dinheiro, mas André explicou que os coqueiros começaram a morrer. Um pequeno besouro invasor os estava matando, disse ele, fazendo com que as folhas caíssem e deixando troncos espetados no ar.
Após 20 minutos de condução pelo arvoredo, o trator parou e o motor desligou. Eu olhei para cima e lá estava ele, magro e circunspecto, quase imperceptível exceto pelos quatro ramos que giravam em sua base. As longas folhas ondulavam ao vento.
“É o coqueiro de quatro cabeças!”, Tearoha gritou. Fiquei pasmo com a estranheza diante de nós e me perguntei como isso aconteceu. Até agora eu já tinha ouvido a história de quase todos os humanos na ilha, como havia sete ramos, mas três haviam se quebrado no último grande tufão.
Os homens começaram a se lembrar de diferentes tempestades que haviam destruído a floresta de árvores em horas e como os idosos podiam prever um tufão apenas de observar os pássaros.
No passado, os ilhéus se prendiam aos coqueiros para não serem levados pelos ventos fortes. Agora eles tinham uma sirene disparada automaticamente a centenas de quilômetros de distância e a igreja de pedra para protegê-los.
Pegamos o longo caminho de volta à aldeia.
André parou o trator em frente ao seu bangalô turquesa e encostou-se em um tronco de palmeira. Com alguns golpes rápidos de seu facão, ele cortou cocos frescos para todos nós e me entregou um litro inteiro de água de coco.
“Podemos não ter água”, disse André, “mas sempre podemos beber água de coco.”
Naquela noite, André, Severo e alguns dos outros homens de Tepoto se reuniram em frente à nossa casa rosa para beber cerveja e conversar sobre pesca. Eles falavam uma mistura de francês, taitiano e o idioma local de Paumotu. Esforcei-me para entender totalmente suas histórias épicas.
“Aqui, um presente”, disse Joseph, um pescador que me deu uma isca artesanal que ele usou para pegar peixe. O gancho de metal afiado foi decorado com um fiador de madrepérola entalhado e um rabo de porco selvagem. Em troca, dei a ele meus óculos de proteção.
Estávamos em uma pequena ilha com energia solar, sem internet, sem carros ou Starbucks.
Os técnicos e eu éramos a única presença externa e tentei fazer valer a pena. A escola primária tinha um tabuleiro de xadrez, mas nenhuma das crianças sabia jogar. Depois de horas de instrução, sugeri que brincassem um com o outro.
Napuka
Na manhã seguinte, os homens lançaram o barco na arrebentação. Os sogros de Severo vieram conosco. De vez em quando, gostavam de visitar a família em Napuka.
“Você é bem-vindo a qualquer hora”, disse tavana Louana, colocando um colar de conchas de cauri polido em volta do meu pescoço.
“Sim, venha ficar conosco de novo”, disse Severo, acrescentando outro colar. André e os outros ilhéus vieram e acrescentaram seus próprios colares amarrados à mão.
No momento em que subi no barco oscilante, minha cabeça estava inclinada para frente com o peso das conchas em volta do meu pescoço. Cinco minutos depois, Tepoto não era nada mais do que um sussurro verde no oceano azul.
Passei mais três dias em Napuka, adaptando-me ao barulho repentino e às multidões desta metrópole de 200 pessoas. A sogra de Severo me avisou: “Em Tepoto, não trancamos as portas, mas em Napuka, nós trancamos.” Duzentas pessoas eram demais para confiar e, ao contrário de Tepoto, havia carros e pelo menos três ruas incluindo a estrada para o aeroporto.
Quer ele tenha sido designado ou se voluntariado, o bombeiro da ilha se tornou minha escolta em Napuka. Seu nome estava tatuado em seu peito, Marama, e dentro de uma hora após a chegada, ele me colocou até os joelhos na lagoa enquanto abria um molusco vivo.
“Coma”, disse ele. “Você precisa provar como nossos mariscos são bons.”
Então eu coloquei na minha boca, esmagando e mordendo a carne salgada e viscosa.
“Mais. Você deixou a melhor parte “, disse Marama. Limpei a casca e bebi o suco como uma ostra. Marama sorriu. Isso era algum tipo de teste?
“A maioria dos estrangeiros nunca concordaria em comer um marisco cru como você”, disse Marama. “Mas essa é a nossa cultura. É assim que sobrevivemos aqui. Você mostrou que nos respeita. ”
Eu os respeitava, mas em Tepoto também comia mariscos em todas as refeições (crus, em conserva, cozidos e com curry). Nunca peguei algo sozinho, porque tirar qualquer coisa da ilha seria roubar, pensei. Os ilhéus impuseram suas próprias cotas, mas compartilharam comigo tudo que retirassem do mar.
Marama me disse que fazia parte do conselho da ilha Napuka, que regulamentava a coleta de amêijoas e cocos. Quando não havia outro alimento disponível, sempre haveria amêijoas, e era seu trabalho manter uma população sustentável de amêijoas e cocos.
“Como você ficou sabendo sobre Napuka?”, Marama me perguntou.
Eu disse a ele que havia lido sobre as ilhas em um livro muito antigo.
“Byron?”, perguntou Marama com um sorriso malicioso.
“Sim”, respondi. “Byron veio aqui em 1765.”
“Você sabe”, disse Marama, “as pessoas aqui não gostam muito de Byron. Ele nos chamou de ‘As Ilhas da Decepção’, certo? ” Ele riu: “Gostaria que as pessoas soubessem a verdade sobre este lugar. Você realmente precisa conhecer as pessoas para entender. ”
“Eu sei,” eu disse. “E agora que estive aqui, sei que Byron estava errado.”
Na verdade, parecia impossível ficar decepcionado com a cena que me envolvia naquele momento. O céu parecia feito de Photoshop, com nuvens uniformemente espaçadas, e a lagoa brilhava com a cor das piscinas da Califórnia.
Coqueiros de 20 metros de altura dançavam lentamente e eu tinha acabado de fazer um novo amigo que me levaria para pescar no dia seguinte e depois nadar em sua praia favorita.
Ele me apresentaria a dezenas de novos amigos, incluindo Maoake Tuhoe, um dos homens mais velhos da ilha, que afirmava que eu era o primeiro estrangeiro de que ele se lembra de ter vindo a Napuka desde que “aqueles peruanos passaram naquele barco”.
Após mais questionamentos, descobri que “aqueles peruanos” eram, na verdade, um grupo de exploradores a bordo de uma jangada liderada pelo norueguês Thor Heyerdahl, em 1947, que foi parar em Tuamotus há 72 anos.
Marama estaria lá no dia em que eu partisse, presenteando-me com um colar com flores grandes e perfumadas e me beijando nas duas faces como um irmão. E eu deixaria para ele meu chapéu de cowboy favorito, aquele que evitou que eu me queimasse no sol escaldante do Pacífico Sul. Ele o vestiu enquanto acenava para mim no avião.
Retorno
Demorei um dia pulando pelas ilhas para voltar ao Taiti, onde me senti afetado por tudo: o trânsito, as luzes da rua, os turistas e até a água quente corrente da banheira do meu hotel. Enchi cadernos e HDs com palavras e imagens de Napuka a Tepoto e vice-versa, mas queria uma opinião mais profissional.
“A história de Byron é o único registro que temos de que os europeus chegaram, mas não conseguiram fazer contato com os nativos”, disse Jean Kapé, que cresceu em Napuka e agora atua como diretor da L’Académie Paumotu do Taiti, que é dedicada a preservar a língua, cultura e meio ambiente das Ilhas Tuamotu. Eu conheci o irmão de Kapé em Napuka, e ele nos conectou.
Respondendo ao sentimento de decepção de Byron, Kapé disse: “Se alguém de outro lugar dá sua opinião sobre um lugar, isso já é falso, porque essa opinião é baseada apenas no que eles sabem”.
A fracassada chegada de Byron representa a última conexão perdida. E, no entanto, seu fracasso pode ter poupado Napuka do mesmo destino de muitas ilhas do Pacífico sul.
“Napuka e Tepoto são os últimos lugares onde você pode testemunhar a vegetação original das ilhas Tuamotu”, disse Kapé. A língua Paumotu, que ainda é falada por cerca de 6 mil pessoas, também está viva lá, junto com seus costumes, um dos quais é a hospitalidade desenfreada em relação aos raros visitantes que recebem das ilhas próximas.
“Receber as pessoas é sagrado para os polinésios. É a alma de toda a humanidade “, disse Kapé. “Mas, com muita frequência, com a história, os estrangeiros são aqueles que seguram a caneta, daí um nome como ‘As Ilhas da Decepção’. Mas mesmo Napuka e Tepoto são apenas apelidos. Os nomes reais das ilhas contam uma história muito mais completa do lugar que você acabou de visitar. ”
Conversamos por horas, Kapé e eu. Repetidamente, ele tentou explicar os muitos nomes polinésios das ilhas, como Te Puka Runga, “A árvore onde o sol nasce” (Napuka); e Te Puka Raro, “A árvore onde o sol se põe” (Tepoto), decifrando o dialeto complexo e os múltiplos significados ocultos por trás de cada nome. Abrange séculos de histórias que remontam aos habitantes originais e sua visão de mundo quando seu universo era nada mais do que as duas ilhas, o oceano circundante e o grande sol que se movia no alto.
Escutei atentamente e fiz anotações, mas não posso fingir que entendi totalmente, ou pior, tentar transmitir uma história tão bela e complexa com minhas próprias palavras. Em vez de repetir o erro de Byron de tentar nomeá-los com base no meu entendimento limitado, vou ficar em silêncio: não por decepção, negligência ou preguiça, mas por respeito a este pequeno pedaço do mundo, desconhecido por tantos, mesmo na Polinésia Francesa.
Agradeci a Kapé por seu tempo generoso e apertei sua mão. Em seguida, ele me deu uma carona de volta ao centro de Papeete, onde multidões de turistas franceses e americanos vasculhavam prateleiras de camisas com estampas florais e tatuagens tribais como souvenirs.
“Esqueci de perguntar”, disse Kapé quando abri a porta de seu carro. “Em Tepoto, eles mostraram a você o coqueiro de quatro cabeças?”
*Este texto foi escrito antes da crise do coronavírus e da imposição de restrições a viagens e regras de isolamento social.