Dado é superior ao apresentado pela Secretaria de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde. Organizações ligadas aos povos tradicionais argumentam falta de transparência e exclusão de moradores urbanos; governo federal diz que indígenas fora de aldeias não deixaram de receber ações contra a doença. 1º de julho – Equipe médica das Forças Armadas examinam indígena Yanomami em um pelotão especial de fronteira, onde estão sendo realizados testes para a Covid-19, na terra indígena de Surucucu, em Alto Alegre, Roraima
Adriano Machado/Reuters
O Brasil chegou a 10,3 mil indígenas com confirmação para o Sars CoV-2, segundo dados desta quinta-feira (2) contabilizados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). A Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, apresenta um número menor de casos: 6,8 mil, contabilizado até esta quarta-feira (1º).
As mortes devido à Covid-19 também apresentam uma divergência entre os dados da sociedade civil e do governo. Pela comissão da Apib, que conta com entidades ligadas às comunidades indígenas, o número é de 408 mortos. Eles dizem terem sido informados de 251 óbitos pela Sesai, mas no site da secretaria do ministério consta o número 158.
Mortes por Covid-19 em povos indígenas
G1
O que diz o governo
Em única coletiva a respeito da saúde indígena e Covid-19, o governo federal diz que a Sesai monitora cerca de 750 mil aldeados, mas que são 1 milhão de indígenas no país, ou seja, 250 mil vivem em áreas urbanas. Segundo a secretária-executiva do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Tatiana Alvarenga, os indígenas fora das aldeias “não deixaram de ser cobertos pelas ações”.
Marcelo Xavier, presidente da Fundação Nacional do Índio, disse no início de junho que foi feito um investimento de R$ 20,7 milhões de recursos emergenciais em ações de combate ao novo coronavírus. Entre as medidas, ele fala da entrega de cestas básicas e a implementação de barreiras sanitárias contra a entrada nas terras indígenas.
Além disso, Robson Santos, secretário da Sesai, diz que o órgão tem como base os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, compostos por postos de saúde dentro das aldeias indígenas. “A Sesai presta atenção primária dentro das terras indígenas”, explica.
O que dizem as entidades
A Apib tem o Comitê Nacional pela Vida e Memória dos Povos Indígenas, formado por organizações ligadas diretamente às aldeias e ativistas de proteção aos índios. Os números de casos e mortes por Covid-19 apresentados são maiores porque incluem povos territórios tradicionais em áreas urbanas e rurais, segundo a organização.
Ainda segundo as entidades, a Sesai não tem feito o atendimento e o registros dos indígenas infectados em contexto urbano. A Apib diz que “repudia a medida e exige a revogação da medida para que todos os indígenas sejam atendidos”.
A comissão dos povos explica que faz uma coleta de dados independente e descentralizada com a ajuda das diversas organizações que compõem a base da Apib. Dentro desses dados, também estão somadas as bases da Sesai e das secretarias municipais e estaduais.
Números crescem
Independente da base de dados, os números crescem em curva sem platô. Em 1º de junho, a Apib contabilizava 1,8 mil infectados em povos indígenas. Os números da Sesai estavam em 1,3 mil casos confirmados. Ambos os registros tiveram um acréscimo perto de 500% em apenas um mês.
O povo Xavante foi o mais afetado na última semana, de acordo com a Apib. Entre 25 de junho e 2 de julho, foram 31 mortes. O primeiro caso na comunidade foi registrado em 9 de maio, com um crescimento de 158% apenas nos últimos 7 dias. Nesta quarta-feira (1º), o G1 Mato Grosso noticiou que três índios da etnia morreram em decorrência da Covid-19, em Barra do Garças, a 516 km de Cuiabá.
O presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), Clarêncio Urepariwe, explicou que, na cultura Xavante, a família evita divulgar imagens dos mortos para que não fiquem lembranças.
“Quando alguém falece todos os seus objetos são queimados para evitar a lembrança e a saudade. Acreditamos que o falecido não pertence mais no mundo visível e materialidade”, explicou.
5 povos com o maior número de infectados:
Guajajara – 513
Xikrin do Cateté – 259
Guarani Mbya – 218
Baré – 185
Tiriyó/Kayuana – 168
5 vezes pior que a população branca
Além do que dizem os números de governo e entidades, um estudo coordenado pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) revelou que a prevalência do coronavírus Sars-Cov-2 entre a população indígena urbana (5,4%) é cinco vezes à encontrada na população branca (1,1%).
O estudo divulgado nesta quinta-feira avaliou apenas moradores de cidades brasileiras e não entrevistou indígenas que vivem em aldeias. Pretos e pardos também apresentaram maior proporção de testes positivos que brancos, respectivamente 2,5% e 3,1%.
Para calcular essa relação entre os grupos, a equipe de pesquisadores considerou uma amostra de 89.397 pessoas submetidas a testes sorológicos – que identificam a presença de anticorpos para a Covid –, entrevistadas durante as três fases do estudo Epicovid19 em 133 cidades.
Prevalência da Covid em populações
Mortes Yanomami
Terra indígena Yanomami é a mais vulnerável ao coronavírus, diz Instituto Socioambiental
Dois bebês indígenas foram enterrados em Boa Vista sem a autorização das famílias. As mães procuram os corpos e o Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-Y) tomou conhecimento dos casos no último sábado (27).
De acordo com o presidente do conselho, Júnior Hekuari Yanomami, os bebês morreram vítimas de Covid-19. Eles foram retirados da Terra Yanomami para fazer outros tratamentos, mas foram infectados pelo coronavírus nas unidades de saúde.
“Elas estão desesperadas, não conseguem falar, choram demais e imploram para encontrar os corpos destas crianças, querem conseguir cumprir o ritual de seus povos. Elas querem chorar junto de outros Yanomami, fazer o luto dos indígenas mesmo”, contou Júnior Yanomami após ter contato com as mães.
O MPF afirma que as investigações iniciais apontam que três bebês indígenas foram enterrados no Cemitério Campo da Saudade, em Boa Vista. O órgão disse ainda que acompanha os óbitos e vai garantir a identificação dos corpos e retorno à terra indígena quando for “sanitariamente seguro”.
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