País de 1,3 bilhão de habitantes atingiu 1 milhão de casos confirmados da doença nesta sexta-feira.Veja cinco pontos importantes para entender a pandemia no país. Pessoas fazem compras de última hora em Bangalore, na Índia, na terça-feira (14), antes de novo lockdown na região para evitar propagação do novo coronavírus
Manjunath Kiran / AFP
Brasileiros que moram na Índia acompanham com apreensão a disparada no número de casos de infecção pelo novo coronavírus após o fim de um dos mais rigorosos confinamentos em todo o mundo. Itamaraty afirma que 360 brasileiros já foram repatriados por causa da pandemia de Covid-19.
Nesta sexta-feira (17), o país ultrapassou a marca de um milhão de casos confirmados de contaminação.
O isolamento no país durou 70 dias, mas desde a retomada da atividade econômica, no início de junho, a pandemia evoluiu e o país de 1,3 bilhão de habitantes saltou para o 3º lugar no ranking mundial no número de contaminações da universidade Johns Hopkins.
A Índia tem atualmente mais de 11 vezes mais casos do que a China – país de população semelhante. Mais de 25,6 mil pessoas morreram em território indiano. O pico da pandemia ainda não foi atingido.
Alguns estados do país estão retomando medidas locais de restrição de circulação. A partir de quinta-feira (16), um novo lockdown, agora regional, afeta 120 milhões de pessoas em Bihar, estado no norte do país. (Veja abaixo cinco pontos importantes para entender a pandemia no país)
“A gente fica um pouco assustado e cauteloso, mas a sensação é que não tem muito o que fazer. Todo mundo ficou em casa no lockdown. Ele ajudou até certo ponto, mas não deu o resultado desejado aqui. Temos que tomar o máximo cuidado possível, mas estamos procurando retomar a vida”, afirma a estilista brasileira Letícia Salles, de 33 anos, que mora em Jaipur, no norte do país.
O transporte ferroviário e os voos domésticos ainda operam muito abaixo da capacidade. Embora possam reabrir, restaurantes têm preferido não abrir para que as pessoas possam comer no local, mas servem comida para viagem ou fazem delivery. Cinemas, academias, universidades e escolas seguem fechados.
Estilista Letícia Sales, que está Índia há sete anos, foi morar com o noivo e os sogros em Jaipur durante a quarentena
Arquivo Pessoal/ Letícia Sales
A estilista, que mora há sete na Índia, conta que a família continua fazendo compras online, “só saímos de casa só para ir ao mercado ou quando realmente precisamos”. “Ainda nem cogitamos viajar”, afirma.
Letícia conta que, nas três primeiras semanas do lockdown, ficou sozinha no apartamento onde morava, mas depois eu foi morar com o noivo e os sogros. “Para mim, o coronavírus foi para uma chance de poder conviver com meus sogros e morar com o meu noivo antes de a gente casar, algo que jamais teria acontecido em uma situação normal”, conta.
A pandemia, por outro lado, obrigou o casal a adiar os planos. “Nosso casamento estava marcado para dezembro aqui na Índia. Estávamos planejando faz uns 2 anos, mas tivemos que cancelar. Esse ano acho que vai ficar só no cartório mesmo.”
A estilista disse que se considera uma pessoa de sorte porque tem o apoio da família do noivo, mas reconhece que a situação foi bem difícil para alguns grupos.
“O lockdown ajudou [na contenção do coronavírus], mas trouxe danos para a economia. Ele foi feito muito em cima da hora. O governo avisou às 9 da noite que a partir de meia-noite ia estar tudo fechado. Não ia mais ter transporte, ninguém ia mais trabalhar. Imagina todas as pessoas que ficaram sem poder voltar, como estudantes e trabalhadores que moram em estados diferentes?”
Letícia conta que alguns amigos estão pensando em voltar para o Brasil e não é só por medo de se infectar pelo novo vírus em um estrangeiro, onde a rede de apoio é menor. Os estrangeiros, em geral, estão dependendo de uma autorização do governo indiano para poderem continuar no país.
“Quem fica aqui mais de 180 dias corridos por ano precisa de uma autorização. O visto de todo mundo foi automaticamente prorrogado até 30 dias depois que a fronteira abrir, mas não sabemos quem vai poder ficar ou não depois disso. Essa incerteza está sendo bem ruim para todo mundo e está sendo pior até do que a possibilidade de pegar o corona ou não”, afirma.
A embaixada do Brasil em Nova Déli que afirma que 360 brasileiros foram repatriados por causa da pandemia. Na última estimativa do Itamaraty, que data de 2018, indica que 750 moravam na Índia.
Volta antecipada
Doutorando Victor Secco passou a quarentena sozinho em Varanasi, na Índia
Arquivo pessoal/ Victor Secco
O doutorando Victor Secco, de 32 anos, que estava morando em Varanasi, Uttar Pradesh, decidiu antecipar um pouco a volta para sua casa em Manchester, na Inglatarra, após a flexibilização da quarentena.
“Tive medo de que, com o aumento nos casos, o país voltasse a impor um confinamento rigoroso. Não tem como não ficar apreensivo com a situação. Estamos vendo os números no Brasil, que tem uma população bem menor”, afirma.
O estudante, que chegou no país em setembro de 2019, viu o laboratório de microbiologia da universidade onde estudava se voltar completamente para análises relacionadas à pandemia. “Laboratório passou ficou completamente fora de alcance. O acesso ficou super controlado. Meu trabalho acabou ficando pela metade.”
Secco disse ter ficado admirado com o confinamento. “A quarentena foi impressionante. Ninguém pensou que fosse possível de ser feito na Índia. Tive que sair algumas vezes à tarde e vi a cidade completamente parada”, disse.
Ele morava em uma casa com um caseiro, perto do rio Ganges, considerado sagrados pelos hindus. Porém, o estudante acabou passando a quarentena sozinho, porque o caseiro que tinha viajado por conta de um funeral não teve tempo de voltar para casa após o anúncio do lockdown feito pelo primeiro-ministro Narendra Modi.
Quando precisava, saia para ir ao mercado e também conseguia fazer um passeio até o rio. “Havia policiamento nas ruas, mas podia sair. No começo era mais complicado, mercado abria só das 7h ao meio-dia. Muitos comerciantes moram em cima das lojas em que trabalham. Então, você batia na porta e eles vinham te atender. Alguns serviços funcionaram dessa forma”, diz.
Embora conhecesse os vizinhos e tivesse amigos, o doutorando pensou em voltar no início da quarentena, mas desistiu, porque os transportes aéreo e ferroviário foram totalmente paralisados.
A saída do confinamento tem sido feita aos poucos no país. Em Varanasi, na tentativa de evitar grande fluxo de pessoas nas ruas a administração local determinou que um dia abriam as lojas de um lado da rua e no seguinte do outro. “Um dia eu saía para comprar fruta, no outro, pão”, conta.
Cinco pontos importantes sobre a pandemia na Índia
1. Confinamento começou cedo e foi rigoroso
Margem do rio Ganges, em Varanasi, em maio, durante o lockdown
Arquivo pessoal/ Victor Secco
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, decretou o confinamento em 24 de março, quando o país registrava pouco mais de 500 casos de infecção pelo novo coronavírus e 10 mortes.
As autoridades entenderam que, com uma população de 1,3 bilhão e cidades densamente povoadas, o alastramento rápido da doença poderia tomar uma dimensão catastrófica. Inicialmente, o lockdown iria durar 21 dias, mas foi prorrogado até 31 de maio.
Com o isolamento, a população mais pobre sofreu por não poder trabalhar e garantir o dinheiro para a alimentação. Quase 90% dos trabalhadores do país estão no setor informal, sem salário mínimo ou mesmo direitos trabalhistas.
O lockdown teve um impacto econômico e acabou provocando uma crise humanitária: sem emprego, milhares de trabalhadores migrantes fugiram a pé em direção as suas aldeias natal. Eles caminhavam por longas distâncias para voltar para casa.
Ruas de Varanasi, em Uttar Pradesh, ficaram vazias durante o confinamento
Arquivo pessoal/ Victor Secco
Em abril, o governo anunciou um auxílio emergencial para os mais pobres do país, além da distribuição de alimentos.
Em Rishikesh, cidade que atrai turistas em busca de retiros de meditação, a polícia adotou uma punição diferente para quem não respeitava as regras de confinamento. Turistas estrangeiros tiveram que escrever 500 vezes a mensagem: “Eu não segui as regras de confinamento e eu sinto muito por isso”.
A rigidez no confinamento achatou a curva epidêmica. Porém, ainda assim, em 31 de maio, último dia antes do início da flexibilização, o país já registrava 5,4 mil mortes e 190 mil casos de infecção pelo novo coronavírus, de acordo com a universidade americana Jonhs Hopkins.
A imprensa internacional relatava que nas últimas duas semanas do confinamento os crematórios e cemitérios já enfrentavam dificuldades para lidar com o alto número de mortos.
Apesar do rigor das medidas, o primeiro-ministro indiano contava no início de julho com o apoio 82% da população, de acordo com levantamento do instituto americano Morning Consult.
2. Como está sendo a reabertura?
Pessoas se aglomeram nesta quinta-feira (16) em um mercado de vegetais após bloqueio de 15 dias como uma medida preventiva contra a propagação do novo coronavírus, em Patna, na Índia
Sachin Kumar / AFP
A partir de 1º de junho, o governou permitiu a reativação da maior parte do transporte público, de escritórios e de shoppings centers. O espaço aéreo indiano permaneceu fechado para as companhias aéreas comerciais estrangeiras. Os serviços de trem e voos domésticos estão sendo retomados.
Trabalhadores de fábricas que fugiram das cidades quando começou o lockdown começaram a retornar.
A atividade do consumidor voltou a níveis pré-pandêmicos, mostraram dados do governo, de acordo com a Associated Press.
Apesar da retomada gradual, os casos de coronavírus aumentaram rapidamente principalmente nas grandes cidades como Mumbai, Nova Déli e Madras.
Ainda não está claro qual será a estratégia que será colocada em prática por Narendra Modi visto que o número de infecções e mortes continuam a aumentar rapidamente. Até agora, as iniciativas de novos confinamentos pontuais estão sendo tomadas na esfera regional, como no estado de Bihar (120 milhões de habitantes) ou na região de Bangalore (13 milhões habitantes).
Profissional de saúde coleta amostra para teste de Covid-19 em Mumbai, na Índia, nesta quinta-feira (16 )
Punit Paranjpe / AFP
O uso de máscara é obrigatório nos espaços públicos, nos transportes e no trabalho. Em geral, a medida é respeitada nas grandes cidades, mas muitos indianos usam a proteção de maneira incorretas.
Desde março, a polícia de Nova Déli impôs mais de 42 mil multas pelo não uso de máscara ou por desrespeito à distância social. As multas em toda Índia variam de 200 rúpias, em Bangalore (R$ 14,4), a 1.000 rúpias (R$ 72), em Mumbai. Em Firozabad (norte), quem não usa máscara não paga multa, mas deve assistir a um curso de quatro horas de duração sobre distância física e escrever 500 vezes “tem que usar máscara.
3. Mortalidade é baixa, mas especialistas falam em subnotificação
O Ministério da Saúde da Índia declarou no início de julho que o país estava indo “relativamente bem” no gerenciamento da pandemia, destacando que o país tinha 13 mortes por 1 milhão de pessoas, em comparação com cerca de 400 nos Estados Unidos e 320 no Brasil.
No entanto, Jayaprakash Muliyil, epidemiologista da Christian Medical College em Vellore, que assessora o governo indiano, afirmou à Associated Press que conhecer o número real de vítimas na Índia é “absolutamente impossível”. Isso acontece porque na maioria dos lugares não há mecanismo para registro de qualquer tipo de morte.
Dados oficiais mostram que 43% das pessoas que morreram de Covid-19 tinham entre 30 e 60 anos apesar de pesquisas em todo o mundo indicarem que a doença é particularmente fatal para os idosos. Na avaliação de Muliyil, o dado sugere que muitas mortes entre os indianos mais velhos não estejam sendo relacionadas com a pandemia.
4. Estrutura de saúde deficitária
A saúde pública na Índia é gerenciada na esfera estadual, o que faz com que alguns estados se saiam melhor do que outros, como explica a AP.
O estado de Kerala (sul), onde foram notificados os três primeiros casos de vírus no país, foi visto como modelo, pois conseguiu isolar pacientes precocemente, rastrear e colocar em quarentena os contatos, além de colocar em prática uma política de testes agressivos.
Já a Déli, onde fica a capital, recebeu duras críticas por não ter atuado na prevenção dos casos quando os bloqueios ainda eram mais fáceis de serem colocados em prática. Sem atendimento médicos, doentes morreram em casa.
A crise levou o Ministério do Interior a intervir e disponibilizar 500 vagões ferroviários como enfermarias improvisadas para os hospitais. Em julho, Mumbai abriu quatro novos hospitais de campanha.
Apesar da corrida para disponibilizar novos leitos, as autoridades admitem estar preocupadas com a falta de profissionais de saúde treinados e experientes.
O professor de economia da Universidade de Georgetown Jishnu Das destacou, em conversa com a AP, que “não existe uma coordenação central” feita pelo governo capaz que deslocar equipes de saúde entre os estados.
5. Qual é a contribuição da Índia no combate à pandemia?
Técnicos analisam amostras para testes anticorpo contra o coronavírus em Chennai, na Índia, na quinta-feira (16)
Arun Sankar / AFP
A Índia produz cerca de 1 mil respiradores e cerca de 600 mil kits de equipamentos de proteção individual por dia, de acordo com o instituto de pesquisas do governo Niti Aayog. O país é o segundo maior fabricante de kits do mundo, ficando atrás apenas da China.
Atualmente, a Índia possui sete vacinas contra a Covid-19 em vários estágios de testes clínicos. O Conselho Indiano de Pesquisa Médica prometeu que uma delas, desenvolvida pelo laboratório Bharat Biotech, terá resultados de testes com seres humanos até 15 de agosto.
Mesmo que a vacina não seja desenvolvida em seu território, o país desempenhará certamente um importante papel na produção de vacina já que possui o maior fabricante de vacinas do mundo, o Serum Institute of India, na cidade de Pune, de acordo com a Associated Press.
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