Rei emérito, que abdicou do trono em 2014, é hoje um constrangimento para a realeza espanhola devido a investigações sobre corrupção. O rei Juan Carlos I, da Espanha, acena para a imprensa em frente a catedral de Palma de Maiorca após a tradicional missa de Páscoa em 1º de abril de 2018
Jaime Reina/AFP/Arquivo
O anúncio pela Casa Real Espanhola de que o rei emérito Juan Carlos I está nos Emirados Árabes Unidos desde 3 de agosto pôs fim a dias de especulação sobre o paradeiro do monarca que foi chefe de Estado da Espanha por quase quatro décadas.
Embora a princípio tenha sido relatado que Juan Carlos I havia viajado para a República Dominicana, alguns dias depois a mídia espanhola começou a especular de que ele teria ido para os Emirados Árabes, o que foi confirmado no começo do mês.
Juan Carlos abdicou do trono em favor do seu filho, Felipe 6º, em junho de 2014, e passou a ser tratado com o título de rei emérito. Nos últimos meses, ele tem sido motivo de constrangimento para o trono espanhol.
A saída de Juan Carlos de seu país ocorreu após meses de intensa polêmica sobre as investigações que estão sendo realizadas sobre suas finanças na Espanha e na Suíça. No centro do caso está uma suposta comissão de US$ 100 milhões (R$ 540 milhões) recebida da Arábia Saudita.
Em nota, o Palácio de la Zarzuela, a Casa Real Espanhola, afirmou que Juan Carlos pediu ao rei Felipe 6º que comunique “que em 3 de agosto se mudou para os Emirados Árabes Unidos, onde permanece atualmente”.
A notícia, porém, não esclarece dúvidas como, por exemplo, onde o monarca está hospedado ou se os Emirados Árabes serão seu destino final.
Juan Carlos I, rei emérito da Espanha, está nos Emirados Árabes Unidos
Intimidade
Nos Emirados Árabes Unidos, uma federação de sete emirados no Golfo Pérsico, não se fala sobre a presença do monarca.
Segundo a Agência Efe, a impossibilidade de fazer trabalho jornalístico sem autorização torna praticamente impossível a possibilidade de um veículo de imprensa rastrear o rei emérito.
“Pode ser que os Emirados Árabes criem um clima de privacidade que não haveria em outros lugares. Por exemplo, algo assim seria impensável em outro dos destinos considerados, como a República Dominicana”, disse à BBC News Mundo Beatriz Parera, jornalista do jornal espanhol “El Confidencial” e que vem acompanhando o caso.
Mas, além da discrição, há também as boas relações que Juan Carlos cultivou ao longo dos anos com os regentes árabes.
Uma relação próxima
A relação de Juan Carlos com os países do Golfo é antiga, mesmo antes de ele ser rei, embora tenha se intensificado nos últimos anos.
Suas últimas três viagens oficiais como rei, antes de sua abdicação em junho de 2014, foram para a região.
Na época ele visitou, entre outros países, os Emirados Árabes. E de acordo com reportagens da imprensa, após sua abdicação, o rei emérito viajou 12 vezes aos países do Golfo, incluindo visitas aos Emirados Árabes.
Em algumas dessas viagens, ele foi ao Grande Prêmio de Fórmula 1, disputado em Abu Dhabi, um dos Emirados. Lá ele pôde ser visto em novembro passado, a última vez que essa prova foi realizada.
Juan Carlos mantém uma boa amizade com o regente de Abu Dhabi e governante de fato do país, Mohamed bin Zayed al Nahyan, o príncipe herdeiro dos Emirados popularmente conhecido como MBZ.
Nos Emirados Árabes, o rei emérito “tem todo um ambiente de amizades, recebendo-o de braços abertos e em condições que se provaram atraentes, já que todos sabem que se trata de um lugar onde o luxo está em níveis mais elevados do que em muitos outros lugares”, diz Parera.
Ele também é amigo do primeiro-ministro, xeque Mohamed bin Rashid Maktoum, governante do emirado de Dubai.
Foi justamente o xeque de Dubai que em 2011 deu ao então rei emérito dois carros esportivos Ferrari avaliados em mais de US$ 350 mil (R$ 2 milhões) que, em meio à crise econômica que vivia a Espanha, acabaram sendo cedidos ao Patrimônio Nacional e posteriormente leiloados.
O rei da Espanha, Felipe VI (esquerda) e seu pai, o rei emérito Juan Carlos I, em foto de 6 de janeiro de 2018
Juanjo Martín/Pool/AFP
O pior destino?
Alguns na Espanha consideram um “erro” que o rei emérito tenha escolhido os Emirados Árabes como destino por um motivo principal: sua proximidade com a Arábia Saudita, o epicentro da investigação judicial que levou à sua saída da Espanha.
Em artigo de opinião publicado no El Confidencial, o jornalista José Antonio Zarzalejos, especialista em realeza espanhola, escreve: “Quer se trate de uma transferência provisória ou definitiva, o pai do rei cometeu um grave erro estético e ético que revela um desafio para a opinião pública espanhola, para seu próprio filho, o rei, e, não menos importante, para o governo”.
“Porque o que está sendo investigado pelo Ministério Público do Supremo Tribunal Federal consiste, justamente, no recebimento, sem declarar ao Tesouro espanhol por Juan Carlos 1º, de uma doação — talvez de uma comissão — de dezenas de milhões de dólares em nome do rei da Arábia Saudita, país que faz fronteira com o que, por enquanto, é o destino do rei emérito.”
A jornalista Beatriz Parera concorda.
“Ao escolher os Emirados Árabes, há vários fatores que tornam essa decisão quase a pior que se poderia tomar em termos de opinião pública ou imagem”, diz ele.
“Primeiro, pela proximidade que tem com a Arábia Saudita, que está na origem de todo o caso. Embora não seja investigado diretamente nos Emirados Árabes, houve presentes no passado que podem atrair um pouco daquele ‘cheiro’ de corrupção.”
“Também temos a questão dos paraísos fiscais. Os Emirados Árabes voltaram à lista negra de paraísos fiscais da União Europeia no ano passado.”
Rei Juan Carlos deixa a Espanha em meio a denúncias de corrupção
A investigação
Em 3 de agosto, Juan Carlos 1º enviou uma carta a seu filho explicando sua decisão de deixar a Espanha devido às repercussões públicas de “certos acontecimentos do passado” em sua vida privada.
“Há um ano expressei minha vontade e desejo de deixar de desenvolver atividades institucionais. Agora, guiado pela convicção de prestar o melhor serviço aos espanhóis, suas instituições e a você como rei, informo-vos da minha cuidadosa decisão de me mudar neste momento para fora da Espanha”, escreveu o rei emérito em uma carta de 3 de agosto.
“Fui rei da Espanha por quase 40 anos e durante todos eles sempre quis o melhor para a Espanha e para a Coroa.”
O Ministério Público do Supremo Tribunal Federal está investigando o papel do ex-monarca em um caso de suposta fraude fiscal e lavagem de dinheiro em relação ao contrato de construção do trem de alta velocidade entre as cidades de Medina e Meca, na Arábia Saudita.
As autoridades estão investigando uma suposta transferência de US$ 100 milhões feita pelo regime saudita em favor de Juan Carlos 1º em 2008, quando ele ainda estava no trono.
O dinheiro foi depositado em um banco suíço e o Ministério Público daquele país suspeita que se trate de uma comissão para o rei emérito por ele ter supostamente conseguido fazer com que o consórcio de empresas espanholas apresentasse uma oferta de menor custo.
O caso foi descoberto em 2018 como resultado de uma gravação feita três anos antes por uma mulher que afirma ter sido amante do rei emérito. Corinna zu Sayn-Wittgenstein é uma empresária de 56 anos nascida na Alemanha, mas de nacionalidade dinamarquesa.
Já que a suposta transferência ocorreu quando Juan Carlos 1º ainda era rei e estava protegido pela imunidade que a Constituição espanhola confere ao chefe de Estado, o que a promotoria do Supremo Tribunal espanhol está investigando é se o rei emérito cometeu, posteriormente à abdicação, lavagem de dinheiro e sonegação de recursos do exterior.
Por sua vez, o procurador suíço Yves Bertossa recolhe provas para saber se o pagamento está relacionado com o contrato que os sauditas outorgaram ao consórcio espanhol para a construção do trem.
Os Emirados Árabes Unidos têm um acordo de extradição com a Espanha, mas não com a Suíça, portanto, se a Justiça suíça decidir convocar Juan Carlos 1º para prestar depoimento, a decisão sobre o destino do rei emérito permanecerá nas mãos de um tribunal dos Emirados Árabes.
“Não me atrevo a dizer que esse foi exatamente o motivo (pelo qual ele escolheu os Emirados), mas o fato de ele estar lá complica qualquer plano que o promotor Bertossa possa ter de convocá-lo”, diz Parera.
No entanto, o advogado de Juan Carlos emitiu declaração na qual assegurou que, apesar de ter saído da Espanha, seu cliente estava à disposição do Ministério Público para qualquer procedimento.